Eleições decidem o destino de Clinton
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de outubro de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
France PresseO promotor especial
Kenneth Starr teve
quatro anos para
investigar ClintonSe o Senado dos Estados Unidos tivesse que decidir agora, o presidente Bill Clinton sobreviveria ao processo de impeachment que a Câmara dos Representantes aprovou contra ele, na semana passada, com o apoio de 31 deputados do Partido Democrata e de todos os 227 membros da bancada republicana.
A afirmação foi feita ontem pelo presidente da Comissão de Justiça do Senado, Orrin Hatch, no programa Meet the Press, da rede NBC. Representante do estado de Utah e figura-chave da maioria republicana no Congresso, Hatch disse que não há hoje 67 (ou dois terços do total de cem) senadores dispostos a remover Clinton da Casa Branca por causa das quinze acusações de perjúrio e outros crimes que ele pode ter cometido para esconder seu caso com a ex-estagiária Mônica Lewinsky.
Há outras notícias que apontam para a sobrevivência do desgastado líder americano na Casa Branca. As pesquisas de opinião mostram que a maioria dos americanos não gostou da decisão dos deputados de abrir um processo de impeachment por causa de um escândalo sexual do qual eles já estão mais do que fartos. Além disso, cerca de 60% continuam a aprovar o desempenho de Clinton como presidente, mesmo que se declararem decepcionados com sua conduta pessoal.
E os eleitores consideram as faltas que seu líder cometeu menos graves do que as que as do presidente Richard Nixon no caso Watergate, um quarto de século atrás.
Acusado de obstrução da justiça e abuso de poder pela Comissão de Justiça da Câmara, então nas mãos dos democratas, Nixon, que era republicano, renunciou em agosto de 1974, antes de o plenário se pronunciar.
A sorte de Clinton começará a ser decidida pela Comissão de Justiça logo depois das eleições de 3 de novembro próximo. Mas o resultado do pleito poderá determinar se o inquérito chega ao fim ou se o patético espetáculo que os EUA oferecem hoje ao mundo será resolvido por um acordo político, com um voto de censura e o pagamento de uma multa pesada pelo presidente, que é aparentemente a solução preferida pela maioria.
Tradicionalmente, o partido do presidente perde cadeiras no Congresso nas eleições legislativas que ocorrem na metade de seu segundo mandato. A esperança da Casa Branca é que os eleitores usem as urnas dentro de três semanas para registrar a sua desaprovação à decisão da maioria republicana de ir adiante com o impeachment. Os discursos de Clinton já refletem essa aposta. A campanha, disse ele num jantar de levantamento de fundos, em Washington, na quarta-feira passada, é uma chance para os democratas ficarem acima da política destrutiva de Washington.
A ironia desse momento terrivelmente penoso, ao qual eu lamento muito de ter-lhes sujeitado, é que ele nos deu uma nova oportunidade de afirmar o nosso melhor lado, disse ele, num esforço para animar a base do Partido Democrata para a difícil batalha eleitoral.
Naturalmente, os republicanos acreditam que a decisão de instalar o processo de impeachment contra Clinton só lhes trará benefícios nas urnas e confirmará a tendência das eleições dos últimos dez anos, nas quais os conservadores se transformaram na nova força majoritária da política dos EUA - eles dominam não apenas as duas casas do Congresso, como 36 dos 50 governos de estado e a maioria dos legislativos estaduais.
A aposta dos republicanos baseia-se em dois dados. O desapontamento e a apatia que o caso Lewinsky provoca entre os democratas fez com que aumentasse ainda mais a diferença que os republicanos normalmente levam sobre eles no levantamento de dinheiro para a campanha eleitoral. Além disso, o escândalo mobilizou a direita religiosa, que é a infantaria republicana nas batalhas eleitorais.
O cálculo dos conservadores parece ser menos sólido hoje do que há duas ou três semanas, quando vários estrategistas democratas passaram a admitir que o partido poderia ser destroçado nas eleições. O fato de eles terem aprovado a abertura do processo de impeachment sem prazo para terminar e expandido o inquérito a todas as controvérsias envolvendo a Casa Branca que o promotor especial Kenneth Starr investigou nos últimos quatro anos, além do affair Lewinsky, expôs a motivação política da decisão e pode funcionar a favor dos democratas - e de Clinton -, se os eleitores usarem as urnas para registrar seu protesto contra a ação do partido de manda no Congresso.
Leon Panetta, um ex-deputado da Califórnia que foi chefe de gabinete do presidente acredita que as eleições podem salvar Clinton do impeachment. Mas se houver uma explosão de votos a favor dos republicanos, o presidente terá dois problemas, afirmou Panetta, que depois de ter criticado publicamente Clinton no início do escândalo e insinuado que ele deveria renunciar, está hoje empenhado em conter o prejuízo. Um é que surgirá um novo júri contra ele nessa questão (do impeachment), disse. O outro é que os democratas ficarão muito preocupados com a sorte do partido.
Panetta não diz, mas, nesse cenário, poderiam aparecer os 67 votos necessários para aprovar o impeachment no Senado e as pressões dos próprios democratas em favor da renúncia de Clinton se tornariam irresistíveis.
O destino do presidente americano parece estar, assim, menos nas mãos de Deus, como ele disse na semana passada, do que nas mãos do americanos que votarão dentro de três semanas para eleger a totalidade dos 435 deputados da Câmara dos Representantes, 34 senadores, 36 governadores e milhares de legisladores estaduais em 46 estados.
Os resultados relevantes para o processo de impeachment de Clinton serão, obviamente, os das eleições para deputado e senador. Os democratas precisam tirar onze cadeiras dos republicanos para reconquistar a maioria na Câmara, que perderam em 1994, na primeira eleição legislativa do governo Clinton, depois de passar quatro décadas no mando da casa. Historicamente, o partido que detém a maioria aumenta em dez a vinte lugares sua vantagem nas eleições que ocorrem no meio do mandato presidencial. Um ganho republicano superior a isso poderia ser problemático para a sobrevivência de Clinton.
No Senado, onde os republicanos têm uma margem de 55 a 45 cadeiras sobre seus adversários, 18 das 34 vagas em disputa pertencem a democratas. Um ganho de pelo menos cinco senadores aumentaria a bancada republicana para o número mágico de 60, que lhes permitiria derrotar manobras de obstrução parlamentar dos democratas e impor sua agenda. Os republicanos ficariam ainda aquém do número necessário para tirar Clinton da Casa Branca, mas em melhores condições para converter senadores democratas para a tese do impeachment.
Com os congressistas ainda engalfinhados do debate de meia dúzia de leis de dotação orçamentária que precisam aprovar entre hoje e amanhã para manter o governo federal funcionando, antes de voltar para seus distritos e mergulhar na campanha, as pesquisas de opinião ainda não apontam tendências claras nas urnas.


