Eleição no Chile deve ter segundo turno
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domingo, 11 de dezembro de 2005
Carolina Vila-Nova<br> France Presse 
SANTIAGO, CHILE - Os chilenos vão hoje às urnas para escolher um novo presidente da República e renovar parte de seu Parlamento em um cenário político inédito no país: de um lado, uma direita dividida internamente; de outro, uma coalizão de centro-esquerda cujo favoritismo é impulsionado por uma mulher - e ambos em um intenso cabo-de-guerra pelo voto do eleitorado de centro.
Resta pouca dúvida entre os analistas e o chileno comum de que a socialista Michelle Bachelet, da Concertação governista que está no poder desde 1990, se mantenha na liderança, mas sem a maioria necessária para vencer já no primeiro turno.
Segundo as últimas pesquisas, Bachelet tem 41% das intenções de voto. Apenas o alto índice indecisos pode chegar a ser o fiel da balança, uma possibilidade considerada pouco provável.
A incógnita é quem será seu adversário no segundo turno, marcado para daqui a exatamente um mês - se o empresário moderado Sebastián PiÀera (Renovação Nacional) ou se o representante da direita conservadora, Joaquín Lavín (União Democrática Independente).
Cada um capitalizava, até ontem, 22% e 19% das intenções de votos, respectivamente. A diferença está dentro da margem de erro das pesquisas.
Ao contrário do que faria supor suas tão distintas trajetórias políticas, os três candidatos competem com programas pouco diferentes entre si. ''Em termos programáticos, há matizes, mais do que diferenças fortes, o que é a manifestação de um traço bastante generalizado das campanhas contemporâneas, mas também não significa que as candidaturas sejam a mesma coisa'', disse o cientista político chileno Alfredo Joignant, da Universidade do Chile.
''Evidentemente a candidatura que mais se distingue é a de Tomás Hirsch, o que é natural já que é um candidato de estatura pequena e que tem suficiente liberdade para propor coisas que a outros custa propor'', disse Joignant, em alusão ao candidato da coalizão formada pelos partidos Humanista e Comunista, hoje com 7% das intensões de voto.
Até maio, a direita contava com Lavín como o único candidato pela coalizão Aliança por Chile, entre a RN e a UDI. Isso até que a RN decidiu lançar seu próprio candidato - um homem de perfil ''empreendedor'' e descolado da imagem classicamente vinculada ao pinochetismo de Lavín, que perdeu as eleições de 1999 para o hoje presidente Ricardo Lagos.
Se a divisão da direita favoreceu ou dificultou o avanço de Bachelet, que apesar da vantagem vem registrando queda nas pesquisas nos últimos meses, ainda não há consenso entre os especialistas.
''A liderança de Bachelet se deve muito mais à popularidade do atual governo, à aprovação da população aos governos da Concertação e aos seus atributos subjetivos, como o carisma, a simpatia, a percepção de honestidade e transparência, atributos que o eleitorado chileno está exigindo mais do que os racionais, como a capacidade de gerar empregos'', avalia o cientista político chileno José Miguel Izquierdo, da Universidade Diego Portales.
Para Poignant, porém, o novo cenário forçou uma rearticulação da campanha da socialista. ''Por estar em risco de perder os votos do centro, Bachelet começou a moderar seu discurso - que, em todo caso, nunca foi particularmente virulento - com o objetivo de proteger o eleitoral moderado.''
Os prognósticos para a próxima rodada de votação tampouco são menos complexos. Pela primeira vez, apontam os especialistas, o Chile terá um segundo turno fortemente sujeito à transferência de votos entre candidatos de um mesmo setor (no caso, a direita) entre um turno e outro.
''Tudo indica que vai ser uma transferência muito imperfeita, dado o tom fortemente beligerante da disputa entre os dois candidatos'', afirma Joignant. ''Além disso, PiÀera tentou conquistar explicitamente a votação de centro, enquanto Lavín quis proteger seu nichos tradicionais de votação com de um discurso muito mais conservador, o que delineia duas candidaturas muito diferentes.''
Na última semana, Lavín propôs um acordo de apoio mútuo com PiÀera no segundo turno. Este, porém, negou-se a formalizar um pacto com o adversário. ''Em termos eleitorais, a maior ameaça para Bachelet não está na união da direita, mas na possibilidade de PiÀera passar para o segundo turno e conseguir aglutinar eleitores da democratas cristão'', afirma Izquierdo.


