Eleição de bispa é sinal de mudança na Igreja
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sábado, 24 de junho de 2006
Andréa Barros<br>Agência Estado 
São Paulo Piloto de avião, bióloga formada em Stanford, oceanográfa e filósofa, casada com um matemático, e mãe de uma segundo-tenente da Força Aérea Americana, a bispa Katharine Jefferts Schori foi eleita, no último dia 18, primaz da Igreja Anglicana. Trata-se provavelmente do mais alto posto alcançado por uma mulher na história da Igreja. Não é pouca coisa, em uma comunidade anglicana com 77 milhões de seguidores no mundo todo. E como sempre acontece quando a questão envolve mulheres e Igreja, houve vários protestos.
Fernando Altemeyer, mestre em teologia pela Universidade de Louvain, na Bélgica, tem uma opinião otimista sobre o assunto. Ele aposta que, dentro de 50 anos, todas as igrejas deverão fazer mudanças em favor da presença da mulher. A seguir, os principais trechos:
- A eleição de Katharine: ''É o corolário de um processo iniciado em 1976, quando começou o debate sobre a ordenação de mulheres na Igreja Episcopal dos Estados Unidos, a Igreja Anglicana. Ela é a primeira mulher nomeada para esse conselho de bispos e como disse seu antecessor, a eleição é uma confirmação do testemunho que as mulheres exercem em todas as ordens sagradas da Igreja. Nessa eleição houve vozes críticas dentro da própria Igreja.''
- Só o cargo não resolve: ''Não se resolvem as questões de gênero simplesmente colocando a mulher num posto de destaque. As igrejas também têm questões internas de como lidar com essa nova realidade. Não adianta fazer uma mudança de cima abaixo se não houver um aumento na auto-estima.''
- O papel das mulheres: ''A Igreja Católica não permite mulheres na sua organização clerical, nem no diaconato, no presbiterato, no episcopado e, por consequência no papado. Mas há mulheres representantes do Papa nos conselhos internacionais, em órgãos e secretarias do Vaticano, em cargos importantes. Eu gosto de fazer essa distinção, não para fugir do tema de que a mulher não está na Igreja Católica, mas porque não há apenas cargos clericais. Quanto aos cargos clericais, é preciso fazer um passeio pela história. No surgimento do Cristianismo, como um grupo dissidente do judaísmo, com Jesus de Nazaré, Paulo, Pedro, Thiago, não havia nenhuma distinção formal entre homens e mulheres. No século IV a Igreja se organizou, se burocratizou, se institucionalizou. Criou-se o clero e ele ficou reservado ao masculino. Isso aconteceu por razões culturais: o mundo marcado pela determinação de que o líder (em árabe, o sheik) é homem porque a mulher não tem um papel ativo na condução das tribos. A expressão desse patriarcalismo penetrou também na Igreja.''
- Mudanças à vista: ''Jesus não propôs nenhuma estrutura como eterna, definitiva. Jesus não falou: 'até o fim do mundo vai ter bispo'. Claro, não basta a mulher dizer 'eu quero', será preciso também uma decisão de governo. Ela virá? Virá, inclusive com este papa. Ele apontou algo na sua primeira carta encíclica, dizendo que o eros e a sexualidade erótica, o ato de amor entre homem e mulher, devem ser valorizados na igreja tanto quanto o amor de Deus. Isso nunca foi dito dessa forma.''
- Movimentação geral - ''Nos últimos 40 anos há movimentos em várias igrejas para a inclusão das mulheres. No metodismo brasileiro, por exemplo, já há episcopisas. Em alguns lugares dos Estados Unidos mulheres católicas celebram missa, se autodotaram do poder de presidir a eucaristia. Isso tem valor simbolicamente, um ato feito por cristãos, só que é válido e ilícito, simultaneamente. Esse movimento já existe lá há 30 anos e nunca reverberou aqui. No Brasil a mulher tem uma participação muito forte nas comunidades cristãs, na catequese, na liturgia, nas congregações. Talvez não seja o espaço do reconhecimento institucional mais pleno, mas tem um lugar, sabe que realiza coisas fundamentais. E há ainda as religiões em que a mulher tem postura central, como a umbanda, o candomblé. A Cohen é a maior monja de zen budismo do Brasil.''


