Nova confusão é esperada entre Estados Unidos e Europa. O motivo é o ‘‘Échelon’’ (degrau), que o Parlamento Europeu se prepara para discutir, depois do relatório de um deputado britânico (trabalhista), Glynn Ford.
Porque este ‘‘Échelon’’ provoca um furacão tão grande? Trata-se de um sistema de espionagem antigo, criado em 1948 pelo acordo de segurança UK-USA, assinado então entre o Reino Unido e os Estados Unidos. Cinco países participaram (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Nova Zelândia e Austrália, todos anglo-saxões) para a coleta de informações sobre a União Soviética.
Na época, nada era mais legítimo. Mas a URSS não existe mais. A espionagem militar não tem mais sentido. Ora, ‘‘Échelon’’, longe de fechar suas células, as reforçam. Equipado além disso pelo alto progresso técnico, o ‘‘Échelon’’ é hoje um monstro que conhece tudo o que se diz e que se pensa no universo. A reconversão da espionagem militar em espionagem industrial foi fulgurante.
O ‘‘Échelon’’: seis bases, inclusive duas na Grã-Bretanha, transmitem informações à NSA - a National Security Agency, o mais importante dos treze serviços secretos dos Estados Unidos, com base em Fort Meade, Maryland. Estas bases captam as telecomunicações de 25 satélites geoestacionários Intelsat, utilizados pelas grandes companhias telefônicas.
Para avaliar a força do ‘‘Échelon’’, aqui vão alguns números: o sistema filtra dois milhões de conversas por minuto. É o método de triagem que causa admiração. Uma série de computadores - um sonho de ficção científica - lê os bilhões de dados e deles extrai o que é útil, graças a uma palavra-chave. Por exemplo, ‘‘droga’’. É inútil dizer que os traficantes podem muito bem falar de droga sem usar a palavra. Assim ‘‘Échelon’’ é programado para encontrar a droga não somente pela palavra ‘‘droga’’, mas pelo contexto da mensagem.
Enquanto se trata de fornecer informações sobre a droga, não há qualquer objeção. Mas um instrumento como este pode servir para outra coisa. Segundo os especialistas (entre os quais o neozelandês Nicky Hager, que publicou um livro em 1996), o ‘‘Échelon’’ já realizou belas conquistas industriais.
Em 1994, a França pensou em exportar para o Brasil um contrato de radares. A oferta francesa naufragou quando os norte-americanos acusaram a empresa francesa Thompson-CSF de ter negociado fraudulentamente por baixo do pano. O contrato foi para a companhia norte-americana Raytheon. A culpa foi do Échelon, afirma-se hoje.
Em janeiro de 1994, o primeiro-ministro francês Edouard Balladur foi a Riad (Arábia Saudita) para vender armas e aviões Airbus no valor de 50 bilhões de francos. Mas voltou sem nada. O contrato foi para a MacDonnell-Douglas. Mais uma vez o ‘‘Échelon’’.
A mesma desventura aconteceu aos japoneses, que perderam no ano passado, em favor da ATT, a renovação do sistema de telefonia da Malásia.
Como demonstrar de forma melhor que, se este fim de século conhece apenas guerras que contrapõem pobres contra pobres, enquanto os grandes Estados são poupados de conflitos armados, na realidade está se desenvolvendo uma outra guerra, menos sangrenta, mas tão feroz quanto a corporal: a guerra econômica? Não é simbólico que o instrumento privilegiado da guerra militar, a espionagem, é ‘‘reconvertida’’ sem a menor dificuldade, no campo da guerra econômica?
É compreensível que o Parlamento Europeu se prepare para iniciar investigações sobre o ‘‘Échelon’’, graças ao qual, toda conversa, privada ou pública, realizada em todo o globo, pode cair por trás dos vidros negros de um grande prédio de Maryland, onde está concentrado o mais fenomenal parque eletrônico de todos os tempos e uma densidade de matemáticos sem precedentes.
Observemos enfim que as investigações do Parlamento Europeu serão muito mais divertidas porque um dos membros do ‘‘Échelon’’ é a Inglaterra, também membro da União Européia. Santo Deus! Como é difícil ser ao mesmo tempo europeu e americano!

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