É fácil produzir a bactéria
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de outubro de 2001
Agência Lusa<br> De Lisboa 
A produção da bactéria do antraz em laboratório é uma tarefa ao alcance de qualquer microbiologista e que pode demorar apenas algumas horas para ser executada, segundo especialistas contactados pela Agência Lusa.
Apesar de nenhum deles ter alguma vez produzido o bacilo de ''anthracis'', a experiência com bactérias idênticas, mas ''úteis'', lhes permite dizer que não são necessários grandes meios técnicos ou financeiros para o fazer.
A produção de antraz está contudo sujeita a regras de segurança estritas, já que este bacilo é considerado de grau 3, ou seja, o mais perigoso para a saúde pública.
Segundo Claudina Rodrigues-Pousada, presidente da Sociedade Portuguesa de Bioquímica, não são necessárias grandes quantidades da bactéria para um cenário de contaminação já que o organismo tem todas as condições necessárias para que esta se desenvolva.
No entanto, as condições atmosféricas são essenciais para determinar o grau de sucesso de um hipotético ataque terrorista com antraz, que teria num dia limpo com uma pequena brisa o cenário ideal para espalhar a bactéria no ar.
O bioterrorismo aposta no desconhecimento e na desordem para ajudar a espalhar vírus e bactérias que no sistema de segurança dos laboratórios seriam facilmente controlados.
Por exemplo, se um frasco contendo esporos de antraz, a bioarma mais temida do momento pelos vários casos da doença que vão surgindo nos Estados Unidos, se partir num laboratório não há que recear uma catástrofe.
''Quando acontece um acidente deste gênero, o cientista tem os conhecimentos necessários para sair do local devagar, evitando respirar, isolar a sala e, já devidamente equipado, proceder à limpeza do material perigoso'', explicou à Agência Lusa José Carlos Roseiro, investigador do laboratório de microbiologia do INETI (Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial). Mas no caso de um ataque terrorista com antraz, este é indetectável para o olho humano, já que os esporos (as ''sementes'' da bactéria) têm uma dimensão ao nível dos milésimos de milímetro.
''A contaminação só é detectada quando começam a surgir os primeiros sintomas'', explicou o investigador.
A bactéria que provoca o carbúnculo ou antraz (da denominação inglesa ''anthrax'') tem de ser inserida no organismo e entrar na corrente sanguínea para provocar contaminação.
''Ao contrário dos vírus, como os da varíola e da gripe, que são altamente contagiosos, as bactérias têm de entrar na corrente sanguínea, o que torna mais difícil a contaminação'', explicou Claudina Rodrigues-Pousada.
Ou seja, as pessoas que contraíram antraz nos Estados Unidos dificilmente se contaminaram umas às outras, sendo mais provável que todas tenham de ter estado em contato com várias formas da bactéria. Aliás, foram detectados esporos de antraz no teclado do computador de uma das vítimas. Do teclado para as mãos, daí para os alimentos e desses para o interior do organismo parece ser o percurso mais provável da bactéria nesse caso.
Quanto aos rumores sobre a transmissão da doença por intermédio de um ''pó branco'' enviado em envelopes, a investigadora considera que a contaminação por esta via é possível.
''Pode se tratar da bactéria do antraz liofilizada mas as vítimas teriam de ter inalado ou engolido ou pó'', explicou.
Uma das características desta bactéria que a torna tão perigosa é precisamente o fato de poder resistir durante anos ou mesmo séculos, em virtude de estar protegida pela parede do esporo em que se encontra.
''A maioria dos microorganismos patogênicos morre naturalmente em pouco tempo e tem de ser transmitida de hospedeiro para hospedeiro para sobreviver'', explicou Carlos Roseiro.
No caso do antraz, no início da doença, quando a bactéria ainda não se dividiu é possível atacá-la com antibióticos, como a penicilina, além de existir uma vacina cujos efeitos em humanos não estão ainda largamente testados.
Quanto a métodos preventivos, como as máscaras, elas existem para as pessoas que trabalham habitualmente com estes agentes, como os cientistas, e se distinguem das máscaras de gás pelos filtros muito mais apertados.
No entanto, uma máscara eficaz para a proteção do antraz protege o utilizador apenas da contaminação por inalação, além de ser totalmente inútil contra vírus ou ataques químicos.
O antraz é endêmico em vários países e mais de 100 laboratórios veterinários o manipulam, informou Olivier Lepick, da Fundação para a Pesquisa Estratégica da França.


