Cerca de 40 mil pessoas – inclusive 150 brasileiros – assistiram ontem na Praça de São Pedro em Roma à cerimônia de sagração e investidura de 44 novos cardeais, também chamados ‘‘purpurados’’, devido à vestimenta – cargo máximo da hierarquia católica depois do papa. Entre eles, dom Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador, e dom Claudio Hummes, arcebispo de São Paulo.
O dia ensolarado destacou a cor vermelha, característica dos ‘‘príncipes da Igreja’’, no oitavo consistório convocado por João Paulo II, o papa que mais criou cardeais na história. Atualmente o colégio cardinalício é formado por 184 purpurados – representando 61 países – 135 dos quais com direito a eleger o futuro pontífice. Desses, 125 foram nomeados pelo atual pontífice.
O papa iniciou a cerimônia, suntuosa mas carregada de emoção, citando um por um os nomes dos novos cardeais, seguido por aplausos e até torcida dos fiéis na praça. Em nome de todos, o primeiro da lista – o italiano prefeito para a Congregação dos Bispos, Giovanni Battista Re –, agradeceu o pontífice pela nomeação.
O ponto alto do rito, acompanhado por centenas de jornalistas do mundo todo e transmitido ao vivo via satélite para vários países, foi a entrega do barrete vermelho – símbolo do compromisso que os novos cardeais assumem de dedicação à Igreja e ao papa até o derramamento de sangue em defesa da fé, se for necessário.
Ajoelhados diante do Santo Padre, os cardeais juraram fidelidade, receberam o barrete e a bula com a nomeação. No final, abraçaram e beijaram o pontífice.
‘‘Vocês são os primeiros cardeais do novo milênio’’, disse João Paulo II, levemente resfriado, em sua homilia. ‘‘O mundo é cada vez mais complexo e mutável e a Igreja deve preparar-se para enfrentar os desafios de um planeta globalizado’’, afirmou o Santo Padre, que pediu aos novos purpurados que juntos ‘‘soltem as velas da mística nave da Igreja para que ela possa ganhar mar aberto e levar ao mundo sua mensagem de salvação’’.
‘‘Não é um título pessoal, mas um título para a Igreja de Salvador e para o Brasil como sede primazial’’, disse à Agência Estado o cardeal Geraldo Majella Agnelo, comentando sua nomeação, ainda emocionado com a cerimônia.
À tarde os novos cardeais receberam os cumprimentos de fiéis, amigos, colaboradores e parentes no Palácio Apostólico e na sala de audiências Paulo VI. Milhares de pessoas lotaram as salas com afrescos e repletas de obras de arte e de história, abertas excepcionalmente para comemorar os novos purpurados. Uma ocasião também para estreitar laços e contatos em vista do futuro conclave.
‘‘Mais trabalho e mais viagens a Roma, mas muita gratificação porque é um chamado de Jesus Cristo. Somos mais solicitados a opinar junto ao papa e com ele refletir e meditar sobre o que é a Igreja no mundo de hoje.’’ Assim o cardeal Hummes comentou sua nomeação, que disse aceitar com humildade, e falou sorridente com centenas de pessoas nos corredores próximos à Capela Sistina. Falou com a mesma desenvoltura em italiano, inglês, francês e alemão e surpreendeu os vaticanistas que já o colocaram na lista dos papáveis (cardeais cotados para substituir o atual papa).
À Agência Estado dom Hummes elencou os principais desafios que a Igreja do próximo papado deverá enfrentar.
Hoje – dia em que se festeja a cátedra de S. Pedro – pela manhã, os novos cardeais vão concelebrar missa com o Santo Padre. No final receberão o anel cardinalício e amanhã têm encontro privado com João Paulo II.

mockup