Sem dinheiro, comida, roupas, lugar para dormir, e nem mesmo contato com parentes, cerca de 300 brasileiros permaneciam retidos em Ciudad del Este ontem à tarde, após 30 horas de bloqueio policial na Ponte da Amizade. Segundo estimativas, outros 1.200 brasileiros estavam abrigados em casas de parentes e amigos ou nas lojas onde trabalham, sem poder voltar para o País. O fechamento de todas as fronteiras foi determinado pelo governo paraguaio, como uma das medidas na tentativa de prender os assassinos do vice-presidente, Luis Maria Arga¤a.
Nem mesmo o Consulado do Brasil em Ciudad del Este - a representação brasileira mais próxima do grupo de ‘‘exilados’’- está prestando a assistência necessária, segundo denunciaram à Folha dezenas dessas pessoas. Procurado pela Folha, o cônsul, Ernesto Carvalho, disse que ‘‘não recebia queixas de ninguém’’ e desligou o telefone, sem responder às perguntas do repórter.
Um grupo de 40 brasileiros teria procurado ajuda ontem pela manhã no consulado, sem sucesso. ‘‘Nem chegamos a ser recebidos’’, disse a sacoleira Tânia Regina Womer, de 32 anos, que mora em Dionísio Cerqueira (SC) e estava retida no lado paraguaio desde o final da tarde de anteontem. ‘‘Para que serve um consulado, senão para nos ajudar numa situação dessas?’’, questionou Tânia.
Entre os 300 brasileiros aglomerados na aduana da Ponte da Amizade ontem à tarde, sob um sol que superava os 35ºC, havia dezenas de crianças, mulheres, idosos e doentes. A maioria não tinha dinheiro para comprar alimentos e nem pagar diárias de hotel. Entre anteontem e ontem, cerca de 500 pessoas dormiram no asfalto, sem cobertores ou colchões.
Com os dois filhos - Patrícia, de 4 anos, e Gabriel, seis meses - e a irmã Lucilene, de 20 anos, a dona-de-casa Vânia de Assis Pereira, de 23 anos, que mora em Foz do Iguaçu, permanecia retida desde o meio-dia de ontem, quando chegou à fronteira depois de visitar uma tia no interior paraguaio. Sem dinheiro, às 15h30 eles ainda não haviam almoçado.
O Itamaraty informou que a Embaixada do Brasil em Assunção poderá ser acionada caso não haja solução a curto prazo para os brasileiros que continuam retidos na fronteira. Até o fim da tarde de ontem, o consulado em Ciudad del Este ainda não havia transmitido ao Itaramaty notícias sobre novas liberações. Segundo o Itamaraty, o consulado está fazendo todos os esforços para atender aos brasileiros, dentro das limitações.

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