Misterioso e introvertido, o candidato favorito às eleições russas usa a guerra na Chechênia como um importante trunfo

Gilles Lapouge
De Paris

As eleições presidenciais russas vão se dar daqui a quatro dias. Não é preciso ter uma ‘‘bola de cristal’’ para anunciar o vencedor: Vladimir Putin, presidente interino, após a debandada de seu ‘‘padrinho’’ Bóris Yeltsin.
O homem é misterioso: introvertido, antigo coronel da KGB, frio, no entanto seduz a maior parte dos políticos europeus que visitam Moscou (Tony Blair tornou-se lírico). Todavia, essas impressões permanecem vagas, mas isso não tem importância, pois já se sabe quem serão os vencedores das urnas russas: a ‘‘guerra da Chechênia’’ e o exército.
A TV mostra Putin no Cáucaso, onde ele condecora um grande número de pára- quedistas. No dia seguinte, assiste-se à sua descida de um caça vestido como piloto de guerra. Diariamente, reportagens na TV enchem as telas. Nelas, os soldados são os heróis e os salvadores da Rússia. Putin está lá, no meio dos soldados uniformizados. As imagens ressoam com bandeiras, desfiles, bandeirolas e figuras marciais.
Putin trata seus soldados como uma mãe: esse exército, tão orgulhoso no tempo de Stálin e que tinha 5 milhões de soldados em 1980, não tem mais do que 1,2 milhão, decompostos, desarmados, pobres. Mas Putin chegou e tudo mudou: o orçamento da Defesa deu um salto de 25 bilhões de rublos para 63 bilhões. E Putin acaba de restaurar uma regra que havia sido extinta em 1991: os alunos dos liceus vão, como nos tempos da União Soviética, seguir uma ‘‘preparação militar inicial’’.
Ao mesmo tempo, Putin ‘‘deu’’ aos militares a Chechênia. Foi uma maneira, para o exército, de reencontrar sua ‘‘honra perdida’’, perdida tanto durante operações punitivas dos soviéticos contra determinadas democracias populares, por ocasião da primeira guerra lamentável da Chechênia, sob Yeltsin, quando o exército tornou-se o próprio centro da corrupção. Putin devolveu o orgulho aos soldados.
Mas não é só isso: os russos, como qualquer pessoa no mundo, amam ao mesmo tempo sua pátria e sua estrutura, seu exército. A decadência desse exército, há dez anos, ofendeu a maior parte dos russos (do mesmo modo que a ignomínia da corrupção financeira do círculo de Yeltsin, dos barões do regime e dos mafiosos).
O cálculo de Putin foi, então, exato: restituindo a força e o orgulho ao exército russo, restituiu a esperança aos cidadãos. É preciso, então, reconhecer que Putin se mostrou, até aqui, um grande jogador.