Despedida emocionada de Fidel e João Paulo II
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terça-feira, 27 de janeiro de 1998
Henry Raymont 
France PresseJoão Paulo II: continuidadeFoi uma partida inverossímil: o líder da Revolução Cubana, que se proclamava marxista-leninista e, até há cinco anos, ateu, despedindo-se, com olhos umedecidos, do chefe da Igreja Católica que fez de seu pontificado uma cruzada anticomunista. O papa João Paulo II partiu de Havana para Roma domingo à noite.
Muitos cubanos podem ter pensado que estavam sonhando, ao ver a cena final do drama que se desenrolou em Cuba desde a chegada do papa João Paulo II, e ainda ontem mantinha perplexos os habitantes desta bela ilha caribenha.
Milhões de telespectadores do mundo inteiro também devem ter-se sentido perplexos diante das imagens da cerimônia de despedida no aeroporto internacional José Marti, quando os dois líderes trocaram um aperto de mão, em um gesto de afeto que selou todos os seus encontros públicos e particulares.
Depois de acompanhar o papa até a rampa do gigantesco avião da Alitália, Castro permaneceu no terminal, até o avião decolar, e ergueu o braço em um gesto de despedida. Seu gesto foi correspondido pelo papa.
Sem dúvida, os que sentem o impacto mais direto da histórica visita são os 11 milhões de cubanos esperançosos de que o emissário de Deus na Terra possa salvar Cuba de sua premente situação econômica e do semi-isolamento político, agravados pelo boicote implacável dos Estados Unidos.
Castro, vestindo o terno azul que usou desde a chegada do papa, em vez do uniforme verde-oliva que usa habitualmente, falou em tom emocionado, ao se despedir: Pela honra de sua visita, por todas as suas expressões de afeto pelos cubanos, por todas as suas palavras, mesmo aquelas com as quais possa estar em desacordo; em nome de todo o povo de Cuba, Santidade, eu lhe agradeço.
Em sua resposta, o sumo pontífice soube, de imediato, reagir às angústias do povo cubano, assim como ao problema internacional que Castro enfrenta. Os frutos da visita, declarou, manifestaram-se na calorosa acolhida dispensada. O papa ressaltou que o diálogo iniciado deve ter continuidade, de algumas maneira.
No aspecto político o pontífice expressou firme condenação das manobras dos Estados Unidos para isolar Cuba, classificando-as como injustas e eticamente inaceitáveis, embora não tenha citado o nome do país vizinho. Também instou o resto do mundo, mas especificamente os países latino-americanos e a Espanha, a se esforçar para reintegrar Cuba ao concerto internacional.
Essa alusão à América Latina poderia ser um desafio direto às esporádicas e inconclusas gestões do Grupo do Rio e da Organização dos Estados Americanos para adotar uma posição mais decidida em relação ao problema cubano, segundo fontes diplomáticas desta capital.
O chamado papal coincide, por exmeplo, com a atitude decidida adotada pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, para incluir Cuba na projetada reunião de chefes de Estado latino-americanos e da União Européia que se realizará no Rio de Janeiro.
A diplomacia brasileira está agindo com o objetivo de atalhar as manobras do governo conservador da Nicarágua para impedir que a conferência de cúpula ibero-americana do ano 2000 se realize em Havana.
Nos dois casos o governo de Brasília conta com o apoio do chanceler panamenho Ricardo Alberto Arias, atual secretário interino do Grupo do Rio, que também deseja intensificar a cooperação de Cuba na luta de seu governo contra o tráfico de narcóticos.
Sabe-se, também, que dos governos que inicialmente se uniram à Nicarágua no seu afã de excluir Cuba, Argentina e Espanha, estão a ponto de abandonar esse esforço, em vista do desagrado que essa atitude despertou entre a grande maioria dos governos latino-americanos e do Caribe.
Esse movimento de aproximação de Cuba, embora incipiente, recebeu uma clara dose de oxigênio com as calorosas relações que estão emergindo entre Cuba e o Vaticano, graças à extraordinária viagem do papa e à atitude de deferência e solicitude adotada por Castro em relação ao sumo pontífice em todos os momentos.
Há sintonia entre eles, declarou ao enviado da AE um funcionário que teve acesso direto a ambos. E agora foi instalada uma linha de telefone direta.
A aposta, entre os analistas, é a de que a comunicaçãao será contínua e terá resultados visíveis imediatamente, embora os exilados céticos insistam na afirmação de que tudo continuará como antes.(AE)


