Desilusão leva juventude às ruas
Dorinda Elliott
Newsweek

Arquivo Folha/France Presse
Jovens indonésios, desde os kampongs de Sumatra às agitadas ruas de Java, esperam que os estudantes liderem o caminho para uma reforma no atacadoSe a revolução vier, virá de uma geração inteira de jovens indonésios desiludidos.
É o cair da noite na cidade central de Bandung. As lojas já fecharam e jovens empreendedores como Deni, de 23 anos, com um brinco de prata e cabelos negros até os quadris, estão buscando emoções. Deni e alguns amigos estão passando um tempo na varanda de uma filial do restaurante fast-food Wendy, bebendo vodca barata e cheirando cola.
É a fuga de um mundo que se tornou confuso. Os negócios estão terríveis: vendendo braceletes e colares nas ruas, Deni só conseguiu ganhar um total de US$ 2,50, o que mal dá para a sair da noite. Está difícil saber em quem acreditar ultimamente. Desta calçada esburacada, os novos-ricos com seus Mercedes e sofisticados telefones celulares parecem sonhos que azedaram. ‘‘Gostaria de ser como eles’’, suspira Deni, que almeja uma Harley, ‘‘mas nem consigo mais comprar cigarros’’.
Os revoltosos estudantes podem estar nas manchetes ultimamente. Mas se uma revolução está para acontecer, será comandada por pessoas como Deni, cujo mundo se tornou difícil. Jovens com menos de 30 anos compõem mais da metade da população da Indonésia e, por algumas estimativas, o governo do presidente Suharto precisa criar 4 milhões de novos empregos ao ano apenas para dar emprego básico àqueles que estão atingindo maioridade.
É uma tarefa assustadora para uma economia naufragada; as filas de desempregados aumentaram 50%, chegando a 13,5 milhões somente em abril. Muitos desses novos destituídos sentem-se espoliados. Durante a década passada, a geração mais jovem da Indonésia foi iludida por uma riqueza que se expandia e por expectativas ainda mais altas. Agora, tudo desapareceu - e os jovens condenam o regime de Suharto por permitir que a corrupção e uma política de compadres envenenassem os seus sonhos.
A amargura deles forneceu um poderoso combustível para os protestos nos campos universitários. Jovens indonésios desde os kampongs de Sumatra às agitadas ruas de Java esperam que os estudantes liderem o caminho para uma reforma no atacado. ‘‘Como uma força moral, os estudantes precisam estar na vanguarda da mudança’’, diz o líder da oposição muçulmana, Amien Rais.
Este ponto de vista é compartilhado por jovens que dirigem triciclos, operários e atendentes de lojas, que erguem o polegar quando ouvem sobre os protestos dos estudantes. Em uma favela sem água encanada no meio de Bandung, Wahidun, um condutor de riquixá usando triciclo, não sabe bem a quem culpar pelas suas atuais dificuldades. Teve que fechar a sua banca onde vendia comida porque o negócio fracassou; agora ganha cerca de US$ 0,80 levando moradores por ruas poluídas. ‘‘Nem posso pensar sobre satisfazer os meus sonhos se estou preocupado em ter o suficiente para comer’’, diz ele. Ele espera que os estudantes ‘‘ajudem a resolver nossos problemas’’.
A sociedade indonésia há muito tem sido uma mistura instável. Uma economia de consumo moderna surgiu depressa demais de um país que ainda é conservador e hierárquico. Quando as coisas estavam boas, ninguém parecia se importar. Agora, a confusão para os jovens da Indonésia é intensa. Em casa, eles permanecem presos às tradições. Na maioria das famílias, só se senta à mesa para comer depois que o pai chega em casa. O confronto direto é evitado. Mas fora de casa, os jovens indonésios estão buscando uma nova Terra Prometida: o mundo de Melrose Place talvez, a versão para a televisão americana de jovens adultos tranquilos, que é um dos programas mais populares do país.
Até o colapso econômico, os jovens indonésios podiam sentir que poderiam algum dia fazer parte dessa imaginária cultura abastada. De repente, os jeans de grife e até mesmo os cigarros de cravo que os homens da Indonésia costumam fumar ficaram fora de alcance. A geração mais jovem ficou suspensa no meio, não mais confortável com a tradição mas não mais capaz de sonhar. ‘‘Todo o sistema está se desintegrando’’, diz Y.B. Mangunwijara, um padre católico romano de Yogyakarta. ‘‘Meu medo é que esse povo invista furiosamente. Estamos esperando uma erupção vulcânica.’’
O pacto político tácito da sociedade com Suharto - e particularmente com os seus jovens - agora parece estar se deteriorando. Durante a década passada, quando dominou um crescimento rápido, os indonésios aceitaram o mito nº 1 de que a cultura de seu país é incompatível com a democracia no estilo ocidental. Agora, a política não é mais um assunto proibido nas ruas. Em um ponto turístico de Yogyakarta, jovens punks rabiscaram em inglês com erros de ortografia: ANTI-GOVERMENT. Em Borobudur, onde um templo budista de 1.200 anos paira acima acima dos campos de arroz, um vendedor de rua sibila ‘‘Suharto’’ e depois faz um gesto de cortar a garganta.
Diante das influências culturais, não é de espantar que os jovens precisem mostrar algum estilo. As tradições estilizadas de Java estão dando lugar relutantemente ao mundo moderno. Os tempos realmente difíceis ainda não atingiram muitos na classe média, mas não obstante as pessoas estão furiosas com o declínio do estilo de vida.
Os estudantes estão derrubando tabus. Em uma exposição de arte em Yogyakarta no último outono, montada para ser aberta pouco antes da eleição presidencial, um estudante colocou um terno masculino, sandálias de plástico e um bastão de comando militar dentro de um refrigerador e chamou-o de ‘‘Abra o Seu Freezer - Encontre o Presidente Refrescado’’.
Com todo esse conflito social e cultural, para onde estão indo os jovens da Indonésia? Para o estrangeiro, se conseguirem. Na escola de segundo grau PSKDPSKD High School), até mesmo fazer os exames finais se tornou um fardo: este ano custará US$ 20,00, o dobro da taxa do ano passado. Para os formandos que não vão para a faculdade, simplesmente não há empregos. Tiwa, de 18 anos, que acha que a Indonésia está no ‘‘caos’’ quer estudar no estrangeiro. ‘‘Acho que não tenho futuro neste país’’, queixa-se ele. ‘‘As pessoas bem relacionadas têm belos carros e belas casas. Gostaria de ter essas coisas, mas tenho poucas chances.’’
Os novos ícones culturais da Indonésia não tornam mais fácil a vida dos destituídos. Educada na Califórnia, a escultural Ketty Janur Sari, de 23 anos, é a nova anfitriã de um programa da MTV chamado ‘‘100 Por Cento Indonésia’’. O que o programa tem a ver com a Indonésia talvez não esteja muito claro para alguns telespectadores: ela entrevista grupos de rock americanos como Ninety Eight Degrees e geralmente evita falar de política. ‘‘Definitivamente, as pessoas gostam dos Estados Unidos’’, diz Ketty, vestida com uma camiseta sexy e apertadíssimas calças boca-de-sino, ‘‘por causa de suas roupas legais, música e filmes’’. Ela gosta de frequentar nightclubs onde as pessoas não usam drogas. Em muitos nightclubs de Jacarta, jovens abastados estão experimentando tudo, desde Ecstasy à heroína.
A corrupção desenfreada destituiu a idéia de que o trabalho duro vale a pena. As novelas de televisão da Indonésia mostram jovens de classe média circulando sem esforço em um mundo de telefones celulares, ar condicionado e carros sofisticados. ‘‘Meus amigos dizem que querem um telefone móvel, querem ser executivos de empresa’’, diz Gede, o estudante da Universidade da Indonésia. ‘‘Mas nunca está claro como eles se tornarão executivos. No câmpus, rapazes com belos carros e roupas caras atraem as garotas mais bonitas. ‘‘Há um certa pressão’’, diz Gede, cuja família possui um estéreo Kenwood e dirige um Honda. Eles moram em conjunto de apartamentos na periferia de Jacarta, um lugar que há dez anos era repleto de arrozais.
Em uma época de escassez, as tensões entre os jovens indonésios nativos e os sino-indonésios, cujas famílias dominam a economia, estão mais perigosas do que nunca. Um estudante de segundo grau, filho de um empresário sino-indonénsio está passeando com a namorada no shopping, onde diz comprar as roupas que quer. ‘‘Não me preocupo muito com o preço’’, diz ele. ‘‘Quero ter coisas legais’’, Seu pai lhe dá mais de US$ 50,00 por mês de mesada - mais do que o sêxtuplo do que alguns colegas seus ganham. Às vezes ele vai à escola dirigindo um Toyota Land Cruiser, outras vezes com um sedã japonês. Sua relativa riqueza não é nova, mas se sobressai mais neste momento. ‘‘A maioria das pessoas pensa que os chineses são grosseiros e só se importam com dinheiro’’, diz o jovem homem de negócios, ‘‘enquanto os chineses acham que os indonésios são preguiçosos’’.

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