Seul - Apesar de não viver escondido como outros conterrâneos desertores, Kim Heung-kwang, 58, não é um norte-coreano fácil de se encontrar. De acordo com o endereço informado na internet, a ONG (organização não governamental) de Kim, a Solidariedade aos Intelectuais da Coreia do Norte (NKIS, na sigla em inglês), tem sua sede em uma sala do quinto andar de um prédio na região central de Seul, capital da Coreia do Sul.

O edifício, porém, tem apenas quatro andares. É no último deles que o mal-entendido – proposital – é desfeito por uma funcionária da agência de empregos de construção civil que ali funciona. A organização de Kim fica em um prédio da quadra ao lado, acomodada em duas pequenas salas. No térreo, nenhuma placa informa do funcionamento da ONG de dissidentes da Coreia do Norte.

Professor durante 20 anos na Universidade de Tecnologia da Computação de Hamhung, Kim afirma à Folha que a capacidade da Coreia do Norte realizar ciberataques não deve ser subestimada. "Eu considero os ciberataques tão ameaçadores quanto os mísseis nucleares", diz. A tensão na região cresceu depois do lançamento de um novo míssil pela Coreia do Norte nesta terça (29), que sobrevoou o norte do Japão.

Kim Heung-kwang cita, por exemplo, o crescimento do aparato de segurança cibernética do regime. O efetivo da chamada Unidade 180, célula de ciberataques da agência de inteligência norte-coreana, cresceu de 500 integrantes para cerca de 6.000 desde sua criação, em 1998.

Segundo o desertor, já foram mais de 30 mil tentativas de ataque, a maioria direcionada a conglomerados empresariais e sites governamentais na Coreia do Sul. Os hackers costumam operar de posições secretas na China. Há suspeitas do envolvimento de Pyongyang no megaciberataque de maio deste ano, quando mais de 230 mil computadores em 150 países foram alvo de um ramsonware, software que bloqueia informações e exige dinheiro para destravá-las.

Esse tipo de operação rende US$ 3 bilhões por ano à Coreia do Norte, afirma Kim. O resgate costuma ser pago na moeda virtual bitcoin (1 bitcoin equivale a mais de US$ 4.600).

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