Desafio está no campo da diplomacia
Monica Yanakiew Agência Estado
Se o presidente Slodoban Milosevic cumprir a palavra dada anteontem, a paz voltará à Iugoslavia depois de 72 dias de bombardeio e 72 horas de negociações. Os militares da Otan, liderados pelos Estados Unidos, poderão cantar vitória: venceram a guerra, sem perder soldados. Mas para os políticos, a situação é outra.
O maior desafio começa agora, que a guerra deixa de ser liderada pelos generais para ser conduzida pelos diplomatas.
Cada palavra terá que ser negociada com extremo cuidado, para forjar alianças e evitar problemas futuros. E a primeira questão delicada será o destino do milhão e meio de albaneses, que viviam na província iugoslava do Kosovo antes dos bombardeios.
Não podemos negociar um futuro político para o Kosovo, que descarte a sua independência da Iugoslávia, disse ontem Ivo Daalder, ex-diretor de Assuntos Europeus do Conselho de Segurança Nacional americano. Cometeriamos um erro moral e estratégico, lembrou o especialista, que assessorou a Casa Branca na sua política para a Bosnia.
Foi para proteger os albaneses do Kosovo que a Otan atacou a Iugoslávia. Queria impedir Milosevic de expulsá-los da Iugoslávia e obrigá-lo a restituir a autonomia, que retirou da província em 1989.
Esse objetivo não foi cumprido, disse Daalder. Não podemos falar em vitória quando existem hoje 850 mil albaneses refugiados, além de centenas de mortos, acrescentou.
Com isso, a situação se complicou: sem casa nem trabalho, e com parentes e amigos mortos, os refugiados albaneses dificilmente aceitarão voltar para um Kosovo autônomo e protegido por 50 mil tropas da Otan - mas ainda controlado por Milosevic. A maioria vai querer a independência e se só podemos garantir a sua cooperação e o desarmamento da guerrilha albanesa se levarmos em consideração seus desejos, disse Daalder.
Mas como falar em independência do Kosovo, sem criar um impasse nas negociações ou criar um perigoso precedente internacional? O segredo, disse Daalder, está na redação da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Terá que ser um texto ambíguo, que dê margem de manobra política e não se comprometa, por exemplo, com a preservação da soberania territorial da Iugoslávia, explicou.
Outra sutileza diplomática: quem representará a Iugoslávia nas negociações, uma vez que Milosevic foi comparado pelos americanos e Hitler e indiciado pelo Tribunal de Haia como criminoso de guerra?
Foi o próprio Milosevic quem encontrou uma saída satisfatória para todos.
Na verdade, ressalta Daalder, Milosevic jamais aceitou as condições da Otan. A proposta de paz - envolvendo a retirada de todas as tropas iugoslavas do Kosovo e a entrada de um exército estrangeiro de 50 mil soldados, para garantir a volta dos refugiados - foi primeiro aprovada pelo Parlamento da Iugoslávia. Depois foi ratificada pelo governo federal - não por Milosevic.
Agora as negociações importantes sobre o fim dos bombardeios e o início da retirada das tropas iugoslavas serão realizadas entre os militares dos dois lados, disse Daalder. Uma vez que a Otan tiver 50 mil soldados no Kosovo, tanto faz se Milosevic continua no poder na Iugoslávia, acrescentou.
Se Milosevic continuar no poder na Iugoslávia terá atingido seu principal objetivo, como o presidente Sadam Hussein no Iraque.
Mas Daalder não acredita que os aliados tentarão derrubá-lo militarmente.
Para esse caso, disse ele, a estratégia será econômica: a Otan reconstruirá o Kosovo, que suas bombas destruíram, mas nada fará por Belgrado, pelas centrais de eletricidade ou a residência presidencial, enquanto Milosevic continuar mandando, explicou.
Resta ainda o problema com a China, que já se opunha à guerra empreendida pela Otan, sem a benção das Nações Unidas.
Os chineses, como os russos - que têm problemas com suas minorias étnicas no Tibete e no Caúcaso e também tentaram resolvê-los pela força - vão se opor sempre à nova doutrina de intervenção humanitária.





