O presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, sofreu ontem três duros golpes: o Tribunal Constitucional anulou parte da controvertida eleição presidencial de 24 de setembro, os partidários de Milosevic em Montenegro (pequena república que com a Sérvia forma a Iugoslávia) ameaçam boicotar o segundo turno, no domingo, e a polícia sérvia retirou-se surpreendentemente da mina de carvão de Kolubara, depois de tê-la invadido para reprimir uma greve de 7,2 mil mineiros.
Esses fatos, segundo analistas, podem ser o prenúncio de uma ‘‘renúncia iminente’’ do presidente. Os protestos contra a permanência dele no cargo ganham corpo em toda a Sérvia, que agora ameaça calar a imprensa livre.
O tribunal decidiu manter o resultado oficial das eleições parlamentares e municipais, informou a agência oficial Tanjug. Os juízes não disseram que parte das eleições anularam nem se serão convocadas novas eleições. ‘‘O tribunal dará todos os esclarecimentos amanhã (hoje)’’, acrescentou a agência. Adiantando-se ao pronunciamento oficial dos magistrados (leais a Milosevic), o porta-voz da Oposição Democrática Sérvia (DOS), Goran Svilanovic, disse que o candidato oposicionista Vojislav Kostunica não vai participar de eleições de segundo turno nem de novas eleições de primeiro turno. ‘‘Já temos um presidente’’, ressaltou Svilanovic. ‘‘E isso não é algo que pode ser negociado.’’
A quatro dias do segundo turno, a DOS apresentou aos juízes do Tribunal Constitucional ‘‘evidências das irregularidades’’ na contagem de votos por parte da Comissão Eleitoral. Sob intensa pressão popular, os membros do tribunal decidiram receber representantes da oposição, que proclama a vitória de seu candidato sobre Milosevic no primeiro turno (54% a 38%), e membros da comissão, que, alegando que nenhum dos candidatos conseguiu votação superior a 50% mais 1 (oficialmente 48,96% para Kostunica e 38,62% para Milosevic), convocou o segundo turno.
Zoran Sami, representante da oposição, disse aos juízes que o resultado da eleição em Kosovo chegou à comissão mais de 18 horas depois de encerrada a votação, violando a lei eleitoral. Ele apresentou ‘‘evidências’’ de que pelo menos 140 mil votos procedem de ‘‘colégios eleitorais fictícios’’ de Kosovo. Sami entregou também ao tribunal cópia do programa de computador da Comissão Eleitoral, que ‘‘comprova a fraude’’. E, por fim, acusou a comissão de impedir o acesso de fiscais da DOS ao processo de apuração, como manda a lei. Milena Arezina, representante da comissão, negou todas as acusações. ‘‘Procedemos sempre de acordo com a lei.’’
Num fato inédito no país e apenas algumas horas depois de o governo ter ameaçado a oposição com a adoção de ‘‘poderes de emergência’’, a polícia sérvia decidiu retirar-se pacificamente da mina de Kolubara, tomada pela manhã, aparentemente assustada com o aparecimento no local de mais de 15 mil pessoas que gritavam ‘‘soldados unam-se a nós’’. As instalações foram novamente ocupadas pelos mineiros em greve, que receberam no início da noite a visita de Kostunica.
Dizendo-se ‘‘presidente eleito’’, ele confirmou ter enviado carta a Milosevic exortando o presidente a reconhecer a derrota. Kostunica rejeitou a oferta russa de mediação do conflito, classificando-a de ‘‘muito vaga’’.

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