Denúncia de suborno provoca crise no governo de Fujimori
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de setembro de 2000
Associated Press De Lima 
O Peru mergulhou anteontem à noite em uma nova crise política com a exibição, pela TV peruana, de um vídeo em que o chefe extra-oficial do serviço de inteligência do Peru, Vladimiro Montesinos, de 56 anos, aparece pagando suborno de US$ 15 mil ao deputado Alberto Kouri que trocou a bancada da oposição pela do governo.
A transcrição da fita indica que foi gravada em 5 de maio, antes do segundo turno da eleição presidencial, realizado no dia 28 e vencido pelo presidente Alberto Fujimori. Montesinos é o principal conselheiro de Fujimori, uma eminência parda que acumulou tanto poder a ponto de se tornar um incômodo para a meta de Fujimori de cunhar uma imagem menos ditatorial.
De acordo com a conversa entre os dois no vídeo, a quantia era o pagamento para que Kouri deixasse o partido pelo qual se elegeu no dia 9 de abril, o Peru Possível, cujo candidato presidencial, Alejandro Toledo, era o principal rival de Fujimori. Montesinos pergunta ainda a Kouri se ele pode contatar outros oposicionsitas interessados em passar para o lado do governo.
A cena transcorre no escritório de Montesinos na sede do Serviço de Inteligência Nacional (SIN) e a fita foi apresentada em uma coletiva de imprensa na quinta-feira pelo deputado oposicionista Fernando Oliveira, da Frente Independente Moralizadora (FIM).
Ontem, Kouri admitiu ter-se encontrado com Montesinos na sala dele e ter recebido o dinheiro, mas afirmou que o valor era para comprar um caminhão refrigerado para distribuir peixe aos pobres, como parte de um programa social do qual toma parte.
As imagens causaram indignação no país. A oposição, a imprensa, a Promotoria Pública e a Conferência Episcopal peruana, entre outros, exigiram a destituição de Montesinos de suas funções. Um grupo de parlamentares apresentou uma moção retirando a imunidade parlamentar de Khouri para que possa ser julgado por corrupção.
O primeiro-ministro Federico Salas disse aos repórteres que Montesinos requisitou à Justiça que inicie investigações, o que foi confirmado pela Procuradora-Geral Blanca Nelida Colán. Confio na honestidade do presidente Fujimori, afirmou Salas, no que foi a primeira declaração de um membro do governo sobre o caso.
Fujimori não se manifestou, mas sabe-se que após a apresentação do vídeo pelo deputado Oliveira, ele se reuniu das 17 horas de quinta-feira até as 2 horas de ontem com seu ministério para discutir o escândalo.
O flagrante tomado do todo-poderoso chefe da inteligência peruana foi interpretado por vários analistas da política peruana como uma mostra de que um setor do SIN, supostamente liderado pela Marinha, teria montado essa armadilha para ele. Outros avaliavam que a trama poderia ter partido da cúpula do Exército, onde, apesar de Montesinos exercer forte influência, há também forte descontentamento por seu poder sobre os militares - afinal, ele é um ex-capitão expulso de suas fileiras.
O embaixador dos Estados Unidos no Peru, John Hamilton, pediu ao governo peruano uma investigação rápida, completa e transparente da denúncia de suborno.


