O governo do presidente Fernando de la Rúa, no poder há oito meses, e a oposição peronista estavam ontem envolvidos naquele que pode ser o pior escândalo político desde a volta da democracia na Argentina, em 1983.
Há versões de que foram pagos subornos a senadores para aprovarem a polêmica lei de reforma trabalhista. O projeto foi convertido em lei há três meses. O caso já está sendo chamado por analistas de ‘‘Senadogate’’.
Os senadores negam veementemente ter recebido a propina, enquanto o governo de de la Rúa classifica de ‘‘absurdas’’ as acusações. Mesmo assim, o governo reconhece que o episódio precisa ser investigado.
O presidente Fernando de la Rúa expressou seu completo apoio aos membros do seu Ministério, segundo informou o vice-presidente, Carlos Alvarez, após reunião ministerial. Segundo ele, De la Rúa pediu aos seus colaboradores que cooperem com as investigações sobre a suposta compra de votos no Senado.
Anteontem, o vice-presidente Carlos Alvarez pediu a todos os senadores que renunciassem para que a Justiça possa investigá-los. Para o vice, seria bom que o episódio promovesse no país um processo similar feito na Itália, chamado ‘‘Mãos Limpas’’. O mandato dos 72 senadores termina no ano que vem. O próprio líder do governo na casa, José Genoud, quer antecipar as eleições.
O senador peronista Antonio Cafiero, 79 anos, disse ontem ao jornal La Nación que está disposto a abandonar a bancada de seu partido diante da insistência de seus membros em rejeitar as investigações. As denúncias apontam, segundo carta anônima que circulou no Senado, para o ministro do Trabalho, Alberto Flamarique, e o secretário de Inteligência do Estado (Side), Fernando de Santibañes, um ex-banqueiro próximo ao presidente. A Side controla fundos reservados, de onde teriam vindo os subornos. Flamarique disse ontem que as denúncias não procedem e que acusações assim ‘‘põem o sistema democrático em perigo’’.
O sindicalista Hugo Moyano, da ala dissidente da Confederação Geral do Trabalho (CGT), disse que sempre lutou contra a aprovação da reforma porque teria ouvido Flamarique dizer que a aprovação era certa pois ‘‘tinha um caixa automático para convencer os peronistas’’. O ex-presidente Raul Alfonsín (1983-1989) disse que as acusações são infundadas e que novas investigações são desnecessárias.
Eduardo Menem, irmão do ex-presidente Carlos Menem, por sua vez, disse estar disposto a renunciar ao mandato para permitir a investigação. Já o justicialista Jorge Yoma quer convocar De la Rúa e Santibañes para dar explicações.
Em sua análise, o La Nación diz que ‘‘seja qual for o fim da história, onde todos parecem saber muito mas ninguém se anima a ir muito além, e dificilmente o farão, o certo é que a suspeita voltou a instalar-se pelas mãos do suborno e corrupção, que abrem um cenário imprevisível na vida política do país’’. As denúncias já estão em poder da Justiça e foram apresentadas, separadamente, pelos advogados Marcelo Parrilli, Ricardo Monner Sanz e Juan Carlos Iglesias. Os três falam em co-autoria e pedem a citação no processo do presidente, o ministro do Trabalho e o secretário de Inteligência do Estado (Side).

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