Delta e baixa vacinação fazem Covid disparar no Sudeste Asiático
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segunda-feira, 02 de agosto de 2021
THIAGO AMÂNCIO 
São Paulo - "Exemplo de sucesso", "fenômeno" e "modelo para o mundo". Assim o Vietnã foi descrito em estudos e reportagens que relatavam o triunfo do país de 100 milhões de habitantes contra a Covid-19. Até maio deste ano, o Vietnã tinha registrado só 35 mortes pela pandemia, todas elas concentradas em pouco mais de um mês no ano passado.
O cenário, no entanto, mudou. Embora registre apenas 1.161 mortes por Covid-19 até o sábado (31), o número de vítimas da doença explodiu em julho, a ponto de em um único dia, a última quinta (29), o Vietnã contar 392 óbitos.
O caso do Vietnã é emblemático do que vem enfrentando o Sudeste Asiático, região que conseguiu controlar o avanço do coronavírus ao longo de mais de um ano, mas que tem visto seus sistemas colapsarem em um momento em que as nações mais ricas do mundo avistam o outro lado do túnel da pandemia.
É na região, por exemplo, que está o país com a maior quantidade de mortes diárias pela doença atualmente, a Indonésia. Só na última terça (27), o país registrou 2.069 mortes pela doença. Para se ter uma ideia, isso é quase 7 vezes as cerca de 300 mortes por dia que o país registrava entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro, no que havia sido até agora o pico da doença.
Uma combinação de três fatores explica a explosão de casos e mortes no Sudeste Asiático, na avaliação do epidemiologista indonésio Dickie Budiman, pesquisador da Griffith University, na Austrália.
O primeiro é o que vem preocupando o mundo todo, o avanço da variante delta, que só na Indonésia corresponde a 93% dos casos. A mutação não é só mais contagiosa como também tem derrubado a eficácia das vacinas em aplicação, ainda que elas continuem eficientes para prevenir mortes e hospitalização.
Há discussões defendendo por exemplo que a Coronavac, vacina largamente usada na região, tenha uma terceira dose para a população em geral, de reforço. Trabalhadores da área da saúde já estão recebendo um reforço de outra fabricante, a Moderna, depois que o país registrou a morte de vacinados, e a medida pode ser estendida para o restante da população.
Mas aumentar o número de doses deve dificultar ainda mais o controle da pandemia no Sudeste Asiático, já que outro fator que explica o colapso da região é a baixa oferta de vacinas, afirma Budiman.
Indonésia e Filipinas, os países mais populosos da região, não atingiram 8% da população vacinada completamente. No Vietnã, com seus quase 100 milhões de habitantes, a taxa de pessoas completamente imunizadas é de 0,6%. Em termos de comparação, o Brasil se aproxima dos 20% da população total completamente imunizada.
A baixa capacidade de testagem é o terceiro motivo elencado pelo epidemiologista para explicar a explosão de Covid-19 no Sudeste Asiático. "Infelizmente, antes mesmo do avanço da variante delta, as condições já eram ruins, com poucas vacinas e testagem baixa. Agora a situação é ainda pior, com os hospitais lotados", diz Budiman. Ele reforça que o baixo índice de imunização se dá pela falta de disponibilidade de vacinas. "Não existe um sentimento anti-vacina expressivo, as pessoas estão ansiosas para se vacinar, isso é uma boa notícia, mas o desafio é conseguir imunizantes para milhões e milhões de pessoas", completa.
A explosão da Covid na região atraiu atenção internacional, já que a falta de controle da doença é o caldo ideal para o surgimento de mutações que podem burlar as vacinas. O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, se reunirá por cinco dias na próxima semana com os ministros de relações exteriores de dez países do Sudeste Asiático, e terá na pauta, entre outras coisas, a doação de vacinas para a região - 23 milhões de doses foram doadas. Além disso, a vice-presidente do país, Kamala Harris, visitará Vietnã e Singapura em agosto.


