A defesa do general Augusto Pinochet utilizará como arma de dois gumes um documento que o acusa de ocultar a morte por tortura de um opositor, e alegará que o documento prova que o ex-ditador mandou investigar o crime. A partir da próxima terça-feira, a Corte de Apelações ouvirá as alegações antes de decidir se acolhe os recursos da defesa de Pinochet, que, alegando motivos de saúde do ex-ditador, pede a anulação do seu indiciamento por acusações de homicídio de 75 pessoas em 1973.
Se as apelações forem rejeitadas, a defesa deverá aprofundar o caso e demonstrar a inocência de Pinochet da acusação como autor intelectual dos 57 assassinatos e 18 sequestros.
A defesa do ex-ditador se complicou com a divulgação, quarta-feira, de um documento contendo uma frase escrita à mão por Pinochet – segundo o jornal eletrônico El Mostrador, que a publicou, e foi reproduzida por quase toda a imprensa e televisão chilenas – em que o general propõe informar que o prisioneiro Eugenio Ruiz-Tagle morreu executado ‘‘por graves acusações que existiam contra ele’’, e que não foi torturado. O cadáver de Ruiz-Tagle, um engenheiro de 27 anos, apresentava queimaduras no rosto, cortes, ossos quebrados; e ainda lhe faltavam todas as unhas, um olho e o nariz, que lhe teriam sido arrancados. Ruiz-Tagle é um dos 14 prisioneiros mortos em mãos da ‘‘Caravana da Morte’’ em Antofagasta, quando o grupo de militares que a compunham sequestrou os opositores da prisão em que esperavam julgamento.
A defesa de Pinochet disse que se for comprovada a veracidade da anotação e, ainda, que ‘‘as informações de que dispunha Pinochet justificam a observação que ele colocou, (estes fatos) estão totalmente de acordo com a posição de inocência que temos defendido’’.

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