Em longa reportagem publicada ontem pelo jornal ‘‘Le Monde’’ sob o título ‘‘Carta de um viajante ao presidente da república’’, o intelectual e escritor francês Régis Debray, voltando de uma viagem de mais de duas semanas à Iugoslávia, Kosovo e Macedônia, conta o que viu durante sua estada no país de Slobodan Milosevic.
Suas verdades nem sempre correspondem à realidade do presidente Jacques Chirac e de outros dirigentes dos países da aliança atlântica, manifestada em frequentes intervenções sobre a guerra na televisão francesa.
Inicialmente, Debray, preocupado, pede para não ser julgado como parcial pelos leitores, lembrando que ouviu depoimentos pungentes de refugiados albaneses antes de ‘‘ver do outro lado da fronteira’’.
Desconfiando das viagens do tipo Intourist às diversas frentes ou às visitas com ‘‘guias’’, organizadas para a imprensa internacional, Debray exigiu antes de percorrer a Sérvia e Kosovo seu próprio tradutor e seu próprio veículo.
No longo texto produzido, a imparcialidade de Debray é posta à prova, apesar de o escritor buscar um certo equilíbrio nessa guerra paralela da propaganda entre os sérvios e os dirigentes da aliança.
Debray procura refutar cada um dos argumentos do presidente francês e de seus colegas europeus, entre eles o que define a iniciativa militar da Otan não como uma guerra contra o povo iugoslavo, mas contra o ditador Slobodan Milosevic. Ele lembra que no coração de Belgrado fica o teatro infantil Dusan Radevic, ao lado do imóvel da televisão sérvia, ambos destruídos pelos bombardeios da aliança. Hoje, os estudantes não podem mais comparecer às salas de aula. Mais de 300 escolas foram atingidas pelas bombas da Otan. Também a destruição de indústrias civis provocou o desemprego de mais de 100 mil trabalhadores que ganham um salário mínimo de 230 dinares, cerca de US$ 17 mensais. Hoje, quase metade da população ativa do país encontra-se desempregada.
Debray afirma não ter sido testemunha dos bombardeios da Otan contra colunas de refugiados, nas estradas e nos trens, mas lembra que 400 mil sérvios deportados de Krajina pela Croácia também erraram pelas estradas, sem câmeras e microfones.
Em contato com o general Wertz, porta-voz da Otan, ouviu dele que os civis não foram visados pelos ataques aéreos. Mentira, escreve Debray, dizendo ter visto no vilarejo de Lipjan, no dia 6, uma residência particular pulverizada por um míssil.
Ele viu também três crianças e seus dois avós massacrados, sem que pudessem ser definidos como objetivos militares, a apenas três quilômetros de distância.
Quanto ao ditador iugoslavo, Milosevic, o ex-companheiro de Che Guevara na Bolívia cita, para contestar uma afirmação de Chirac, interlocutores da oposição sérvia que o lembraram de duras realidades. Autocrata, manipulador e populista, Milosevic foi eleito três vezes seguidas, num regime que não é de partido único.
Debray opõe-se também à comparação com Munique, dizendo que isso seria o mesmo que inverter a relação entre o fraco e o forte e imaginar que um país isolado e pobre de 10 milhões de habitantes, que nada visa além das fronteiras da antiga Iugoslávia, possa ser comparado à Alemanha conquistadora e superequipada da época de Hitler.
O escritor cita o depoimento do correspondente do ‘‘Los Angeles Times’’ em Belgrado sobre os primeiros três dias do dilúvio de bombas da Otan, 24, 25 e 26 de março, quando milhares de albaneses de Kosovo receberam ordem de partir. Mas, apesar disso, segundo o mesmo interlocutor, não existe nenhum traço de crime contra a humanidade.
Debray cita também o depoimento de um outro correspondente, o da agência France Press, segundo o qual foram os ataques aéreos da OTAN que ‘‘deflagraram, no início, como uma bola de neve, a catástrofe humanitária’’. Debray confessa ter sido envolvido por uma dose de vergonha quando, em Belgrado, perguntou a um interlocutor da oposição democrática iugoslava por que o presidente Milosevic mostrava-se muito mais interessado em receber uma personalidade americana que uma francesa. A resposta: ‘‘Mais vale falar com o patrão do que com seus empregados.’’

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