De Serra Pelada ao Suriname
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 2010
Leonencio Nossa<br> Agência Estado 
Brasília- Eles vivem a aventura e o drama da exploração de ouro há pelo menos 40 anos. Os garimpeiros atacados no Suriname no fim de 2009 fazem parte de um grupo de brasileiros em constante deslocamento desde a década de 1970. Fugindo das secas, milhares de homens deixaram naquela época o sertão nordestino e os chapadões maranhenses e atravessaram o Rio Tocantins em busca de ocupação nas clareiras abertas na floresta amazônica.
A primeira parada foi no sul do Pará, onde trabalharam em canteiros das obras da Transamazônica e da hidrelétrica de Tucuruí. Ainda na região, atuaram nos garimpos das margens dos rios Itacaiúnas, Araguaia, Tocantins e Vermelho. Foi precisamente em Serra Pelada, a partir de 1980, que mais de 40 mil deles ficaram conhecidos no Brasil e no exterior. O garimpo, controlado por homens do regime militar (1964-1985), encheu os cofres do Banco Central numa época de crise econômica internacional.
Com o declínio da mina e da própria ditadura, os garimpeiros seguiram para as margens do Rio Xingu, onde trabalharam no garimpo do Creporizão, em Itaituba. Lá reinou José Cândido de Araújo, o Zé Arara, um dos tantos personagens que surgiram nos telejornais ostentando pescoços e bocas cheias de ouro. Outros alcançaram as terras dos índios ianomâmis, em Roraima, e as margens do Rio Madeira, em Rondônia.
O aumento da fiscalização de órgãos ambientais nos anos 1990 chegou junto com a queda do preço do ouro e da produção dos garimpos. A presença do Estado na região, no entanto, deu novo gás ao êxodo dos garimpeiros, que ultrapassaram as fronteiras do País, refugiando-se no Suriname e na Guiana Francesa.
O secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Filho, estima que 18 mil brasileiros vivem em situação precária nos garimpos do Suriname. O governo enviou diversos representantes para conhecer as minas do país vizinho e a realidade dos brasileiros. São homens e mulheres em situação irregular e que estão sob controle de milícias e máfias dos garimpos.
O diálogo entre os dois governos é afetado pela fraca estrutura do Estado surinamês. ''Tenho a impressão de que o que ocorreu em Albina não foi um caso isolado. Os brasileiros que estão lá vivem em condições sub-humanas'', diz Tuma Filho. O secretário ressalta que a solução para o problema é sempre demorada por questões diplomáticas. ''Não se pode desrespeitar a soberania dos outros.''
Memórias
''Eles não conhecem fronteiras'', diz a diretora do departamento de estrangeiros do Ministério da Justiça, Izaura Miranda, que tem acompanhado a trajetória desses garimpeiros. Ela acompanhou o auge dos garimpos paraenses, conheceu Zé Arara e tem na memória relatos sobre uma série de massacres ocorridos nas minas amazônicas nas últimas duas décadas. Izaura ressalta as dificuldades do Suriname em colocar em prática os acordos firmados com o Brasil para regularizar a situação desses trabalhadores. ''Ilegais, os garimpeiros são alvos fáceis da máfia do trabalho escravo e do tráfico de pessoas'', observa.


