O governo do presidente Fernando de la Rúa, da Argentina, enfrentará hoje uma nova greve geral, a segunda de seu governo, iniciado em dezembro passado. Mesmo nos círculos oficiais teme-se uma grande adesão à paralisação. A medida de força foi convocada pela ala dissidente da Confederação Geral do Trabalho (CGT), capitaneada pelo líder dos caminhoneiros, Hugo Moyano. Contudo, tem a adesão da ala que concorda em dialogar com o governo. Armando Cavalierie, desta linha, disse anteontem que a medida de força é um protesto ao ajuste econômico do governo. Como se não bastasse, as correntes de esquerda dentro da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) também aderiram.
O governo já deu um recado aos grevistas. Ontem, o ministro do Interior, Federico Storani, garantiu que quem quiser ir para o trabalho terá transporte. Nas paralisações anteriores, trens, ônibus e metrô não tinham se juntado aos manifestantes. Desta vez, o setor também deve cruzar os braços. Storani informou, todavia, que muitas empresas que quiseram trabalhar nas greves anteriores foram intimidadas. ‘‘Desta vez os serviços serão assegurados’’.
Mesmo sem saber de antemão que efeitos a greve terá hoje para a rotina dos argentinos, o governo a recebe com um gabinete dividido. De um lado, os liberais – formado por um grupo de economistas amigos pessoais do presidente De la Rúa – e de outro os ministros considerados ‘‘políticos’’, aqueles que preferem políticas de maior sensibilidade social e que defendem a reativação econômica por meio de investimentos em obras públicas.
‘‘Os neoliberais podem levar o país ao desastre’’, disse anteontem o ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89), chefe da centrista União Cívica Radical (UCR), que integra a coalizão de governo com a esquerdista Frente País Solidário (Frepaso), cujos membros não escondem o incômodo com a guinada conservadora do governo.
Os peronistas, a principal força de oposição, adotou uma atitude de cautela perante a greve com declarações de apoio ou manifestações de neutralidade de seus dirigentes e da maioria dos governadores peronistas que controlam 14 das 23 províncias.
O governo decidiu descontar o dia dos grevistas e colocar em vigência um controvertido decreto que ordena o funcionamento mínimo dos serviços públicos durante as manifestações. A Casa Rosada também teme incidentes nas províncias do interior, onde o desemprego tem feito manifestantes tomarem medidas desesperadas, como o fechamento de rodovias.
O presidente diz que a greve acontece em um momento em que ‘‘a economia começa a recuperar-se’’. Mas segundo estudos, 80% dos argentinos consideram que o país está parado ou em retrocesso. Somente 12% concordam com as políticas de ajustes. Pesquisa da Ricardo Rouvier e Associados, feita em maio, mostra queda na popularidade do presidente e que 50% dos argentinos concordam com a greve geral.

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