De la Rúa anuncia gabinete conservador
Ariel Palácios
Agência Estado
De Buenos Aires
Proporcionar confiança: esta foi a diretriz aplicada pelo presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa, ao escolher os nomes que formarão seu gabinete, anunciado ontem no fim da tarde. De dez ministros, quatro são economistas de destaque, além de serem conservadores, o que afasta a idéia de que a Aliança UCR-Frepaso será de centro-esquerda.
Para reforçar a confiabilidade aos mercados, os seis restantes são estrelas de máxima magnitude da constelação política argentina, e possuem amplo respaldo de seus partidos de origem. No entanto, a Aliança, vencedora das eleições presidenciais de outubro, não dividiu proporcionalmente os ministérios.
A UCR, partido de De la Rúa, ficou com oito pastas: Economia, Relações Exteriores, Infra-Estrutura e Moradia, Interior, Educação, Justiça, Saúde e Defesa, além da chefia de gabinete e a secretaria-geral. O Frepaso, partido do vice-presidente Carlos Chacho Álvarez, somente conseguiu as escassas de verbas e problemáticas pastas de Ação Social e Trabalho.
O gabinete De la Rúa foi considerado demasiado à direita por integrantes do Frepaso, e também por lideranças da UCR. As designações de De la Rúa foram impregnadas por uma forte relação pessoal. Segundo analistas, com este gabinete, o presidente eleito cortou a presença de elementos do círculo do ex-presidente Raúl Alfonsín. Somente um dos ministros pertence à área de influência do ex-presidente, que ainda hoje exerce fortíssima influência no partido.
Os ministros que tomarão posse no dia dez de dezembro são os seguintes:
Economia: José Luis Machinea. Neto de bascos (seu sobrenome pronuncia-se Matchinéa) nasceu há 53 anos na Patagônia. Economista, fez doutorado na Universidade de Minnesota. No governo do presidente Raúl Alfonsín foi sub-secretário de Planejamento e posterioremente de Política Econômica. Presidente do Banco Central Argentino entre 1986 e 1989, saiu do governo quando começou a hiper-inflação. Pouco depois de formada a Aliança UCR-Frepaso, em agosto de 1997, seu nome começou a ser cotado como futuro ministro da Economia. Embora filiado à UCR, a designação de Machinea teve total apoio do Frepaso, que preferia seu perfil moderado em oposicão a outros economistas mais conservadores.
Relações Exteriores: Adalberto Rodríguez Giavarini. Economista de 55 anos, foi secretário de Fazenda da cidade de Buenos Aires de 1996 a 1998. Famoso pela sua honestidade e por não suportar funcionários corruptos ao seu redor, essa característica o confrontou com setores de seu partido que causaram sua demissão do cargo. É considerado um dos melhores administradores públicos do país. Giavarini levaria para a chancelaria parte das atribuições atuais da Secretaria de Indústria e Comércio, de forma a ter maior poder de negociação na área internacional. Ainda não está definido que cargo ocupará a economista Beatriz Nofal, mas tudo indica que seria sua vice-chanceler.
Educação: Juan Llach. Economista nascido em 1943, foi chefe de assessores do ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, e também seu vice-ministro. Sua nomeação causou polêmica no poderoso sindicato dos professores, que nesta quarta-feira organizou uma greve. O protesto estava dirigido contra o governo do presidente Carlos Menem, mas também foi um alerta ao novo ministro.
Defesa: Ricardo López Murphy. Economista de 48 anos, é o mais jovem do gabinete, e também um dos mais polêmicos. Ex-consultor do FMI, chefia a FIEL (Fundação de Investigações Econômicas Latino- americanas).
O ministério do Interior ficou com Federico Storani, o único alfonsinista do gabinete; Justiça ficará com Ricardo Gil Lavedra, que no cargo de juiz federal, em 1984 participou do julgamento aos comandantes da Ditadura por violações aos Direitos Humanos.
O recém-criado Ministério da Infra-Estrutura ficará nas mãos de Nicolás Gallo. O ministério da Saúde fica com Héctor Lombardo, que foi secretário da saúde da cidade de Buenos Aires.
Embora não sejam ministros, dois cargos são fundamentais no gabinete argentino: a chefia de gabinete, que estará a cargo de Rodolfo Terragno, considerado o intelectual da UCR, e Jorge de la Rúa, irmão do presidente eleito, que será seu secretário-geral da presidência.
O Frepaso conseguiu a pasta de Ação Social para Graciela Fernández Meijide, candidata derrotada da Aliança ao governo da província de Buenos Aires. Ela ficará a cargo dos programas de assistência aos desempregados e às populações carentes. O outro ministério será o do Trabalho, nas mãos de Alberto Flamarique. É o braço-direito de Carlos Chacho Álvarez, o vice-presidente.
Além de ter a intenção de proporcionar confiança, a forte presença de economistas no gabinete De la Rúa pretende possibilitar que exista um grupo de economistas à disposição já integrados no governo, caso seja necessário cobrir a eventual falta ou remoção de alguém. Este seria o caso do ministro da Defesa, López Murphy, apreciado pelos mercados, aos quais agradou a meados do ano ao propor uma redução de 20% nos salários dos trabalhadores. Na segunda-feira, o anúncio de que quatro economistas estariam no gabinete fez a bolsa portenha subir quase 4%.Dos dez ministros anunciados, quatro são economistas, além de conservadores, o que afasta a idéia de um governo de centro-esquerda
France PresseDa esquerda para a direita: José Luiz Machinea (Economia), Adalberto Rodrígues Giavarini (Relações Exteriores), Federico Storani (Interior), Ricardo López Murphy (Defesa), Rodolfo Terragno (Chefe de Gabinete), Nicolás Gallo (Infra-Estrutura e Moradia), Juan José Llach (Educação), Graciela Fernández Meijide (Ação Social), Alberto Flamarique (Trabalho), Ricardo Gil Lavedra (Justiça) e Hector Lombardo (Saúde)





