Isolado, o presidente argentino Fernando De la Rúa apresentou ontem à noite sua carta de demissão. Ele deixa o governo para o presidente do Senado, o peronista Ramón Puerta, que assume interinamente o comando do país. A informação foi confirmada pelo secretário-geral da Presidência, Nicholás Gallo.

A lei argentina obriga que o presidente do Senado assuma a presidência do país por todo o mandato em caso da saída do presidente e vice. O vice de De la Rúa, Carlos Chaco Alvarez, renunciou ao cargo no início do ano.

O Partido Justicialista (peronista) já sinalizou que vai entrar com um pedido de urgência para modificar a lei ainda nesta semana e convocar novas eleições presidenciais.

De la Rúa assumiu em dezembro de 1999 e o seu mandato vence em 2003. Para que o Congresso consiga exigir a sua renúncia é preciso que a proposta receba metade dos votos mais um do número total de deputados e senadores.

Milhares de pessoas comemoravam nas ruas de Buenos Aires a renúncia, após a violenta jornada de protestos que varreu a Argentina nesta quinta-feira.

Ontem, o Banco Central argentino decretou feriado bancário para hoje em virtude da iminente renúncia do presidente Fernando De la Rúa. O prazo de vigência da medida não foi fixado. As únicas operações bancárias que serão permitidas são pagamento de contas, de salários de aposentados e pensionistas, cobranças judiciais, além de saques de 250 pesos.

O então presidente De la Rúa aceitou na madrugada de ontem a demissão do ministro da Economia, Domingo Cavallo. O pedido de renúncia foi entregue por Cavallo por volta da 1h30 (horário de Brasília). Além do ministro da Economia, todo o gabinete argentino apresentou sua renúncia.

Refugiado no edifício da elegante esquina da Avenida Libertador e da Rua Ortiz Ocampo, Cavallo teve que suportar durante toda a madrugada os gritos de protesto de centenas de portenhos que, depois de ter conseguido sua renúncia, pediam sua prisão ou expulsão do país.

Em pânico, temendo pela sua segurança, Cavallo pediu a De la Rúa ''proteção especial'' para ele e sua família. Pela manhã, especulava-se que o impopular ministro viajaria para os Estados Unidos, onde estabeleceria sua residência.

No entanto, no decorrer do dia, uma determinação do juiz penal e econômico Julio Speroni proibiu Cavallo de sair do país. O ex-ministro está envolvido no processo judicial sobre o contrabando de armas para a Croácia e o Equador, entre 1991 e 1995. Na época do contrabando, Cavallo era ministro da Economia do governo do ex-presidente Carlos Menem, e assinou como outros ministros os polêmicos decretos de envio das armas para o exterior.

O analista econômico Alfredo Zaiat foi categórico ao definir os últimos tempos de Cavallo em seu cargo: ''Ninguém o queria. No FMI o detestavam. No Departamento de Tesouro dos EUA não o compreendiam, e em Wall Street não o suportavam mais. Aqui, na Argentina, nem aqueles que antigamente o admiravam atualmente possuíam fé nele''.

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