De aspirações locais, chefe do Congresso peruano ganha projeção com articulação de impeachment


SYLVIA COLOMBO
SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Em 2011, numa entrevista a um canal de TV de Tumbes, província no norte do Peru, o então recém-eleito deputado Manuel Merino defendeu as linhas gerais dos projetos que apresentaria ao Congresso.

"Queremos que os jovens do campo de Tumbes não tenham de migrar para as [grandes] cidades por falta de recursos para o cultivo e queremos também construir infraestrutura para que possamos explorar nosso petróleo sem a ajuda [da província] de Piura", afirmou ele à época.



A campanha eleitoral de Merino apelava à valorização do potencial local de uma região pressionada política e economicamente por duas forças: ao norte, o Equador e, ao sul, a próspera Piura.

Tumbes também enfrenta graves problemas de segurança, uma vez que está na rota do narcotráfico e do contrabando entre os dois países.

Manuel Merino de Lama, 59, hoje líder do Congresso do Peru e próximo na linha de sucessão caso o impeachment do presidente Martín Vizcarra seja aprovado na sexta (18), nasceu e cresceu na província.

Filho de uma família de criadores de gado, o engenheiro faz parte das associações de produtores regionais. E foi justamente a bandeira de defesa do agronegócio que o levou ao Congresso, em 2001.

Merino também ajudou a desenvolver, em Tumbes, claro, o projeto Playa Hermosa (praia bonita), para incrementar o turismo local. "Trata-se de um político de província, de perspectivas curtas, e não nacionais, pelo menos até hoje", diz o jornalista Gustavo Gorriti, do IDL-Reporteros, site independente de notícias.

"Agora ele viu uma chance de se projetar nesse Congresso eleito às pressas para substituir o anterior. E esse protagonismo diante do processo de impeachment lhe rende capital político para o futuro."

A crise política se agravou no país após a divulgação de áudios em que Vizcarra pede a assessoras que mintam em um inquérito sobre sua relação com um ex-colaborador investigado por contratos irregulares.

O presidente, que não tem partido nem bancada, irá ao plenário na sexta para apresentar sua defesa. Depois disso, 130 parlamentares debaterão e votarão. São necessários 87 votos para removê-lo do cargo, panorama que parece distante devido a divisões dentro da oposição.

Se o quadro político mudar, Merino, chefe do Congresso, assume a Presidência, porque a segunda vice-presidente, Mercedes Araóz, renunciou durante a crise que levou Vizcarra a utilizar um mecanismo constitucional para fechar o Congresso e convocar novas eleições em 2019.

Araóz era segunda vice-presidente porque o próprio Vizcarra era o primeiro vice. Ele compôs a chapa de Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou há mais de dois anos sob a justificativa de 'clima ingovernável'.

Ao convocar o Parlamento para debater a admissão do processo de vacância, Merino pediu "que as Forças Armadas e os cidadãos tenham a segurança de que agiremos no estrito cumprimento da ordem constitucional". A menção aos militares tinha um propósito: antes da declaração, o parlamentar tentou telefonar ao chefe do Exército, César Astudillo, que não o atendeu e comunicou o movimento ao Executivo.

Fundado em 1956, o Ação Popular, de centro-direita, ao qual pertence Merino, é o partido que mais elegeu democraticamente presidentes no país. O principal nome da legenda, Fernando Belaúnde Terry, governou durante dois mandatos, um deles interrompido por um golpe militar.

Para o cientista político Steven Levitsky, coautor do livro "Como as Democracias Morrem" e professor da Universidade Harvard, não é possível ver nos partidos históricos do país traços de sua própria origem.

"Estou seguro de que a maioria dos congressistas atuais do Ação Popular sequer sabe quem foi Belaúnde. O que se vê no Congresso peruano hoje são os nomes dos partidos históricos virando casas de aluguel tomadas por interesses econômicos, seja da igreja, do mundo agro. O nome Ação Popular não é o que foi antes, foi comprado por um grupo de interesses financeiros, como todos", diz Levitsky à reportagem.

O pesquisador afirma acreditar que a dilapidação das legendas peruanas ocorreu nos anos 1990, durante o fujimorismo, e que nunca houve uma reestruturação dos partidos -daí haver tantas crises seguidas, "pois o sistema peruano atual depende de partidos fortes".

Além do fujimorismo, colaborou para o desgaste o escândalo protagonizado pela empreiteira brasileira Odebrecht, no qual subornos e caixa dois foram pagos a diversos políticos.

O Ação Popular fez parte da aliança que elegeu o ex-presidente Alejandro Toledo, hoje foragido da Justiça nos EUA devido à acusação de ter recebido ilegalmente US$ 35 milhões (R$ 183 milhões).



Merino estava no Congresso como parte da base de apoio de Toledo durante a gestão do presidente que governou o Peru entre 2001 e 2006. O Ação Popular tem hoje 25 das 130 cadeiras no atual Parlamento e continua sendo um tradicional opositor do fujimorismo -representado pelo partido Força Popular.

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