Czar Yeltsin move peças para 2000
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sábado, 04 de abril de 1998
Bill Powell Newsweek 
Foto de Arquivo FolhaEm formaBoris Yeltsin: aos 67 anos e cinco safenas, continua tomando decisões-chave sozinho no comando do paísDurante meses, Boris Yeltsin insinuou timidamente que já sabia qual a pessoa que gostaria que fosse seu sucessor no ano 2000, quando deverão ser realizadas eleições presidenciais na Rússia. Yeltsin prometeu revelar sua escolha no momento oportuno. Há duas semanas, quase todos na Rússia haviam chegado à mesma conclusão óbvia: a pessoa que Yeltsin tinha em mente era Viktor Chernomyrdin, um homem intensamente leal a ele e seu primeiro-ministro há muito tempo.
Nos últimos três meses, Chernomyrdin projetou constantemente seu perfil político. A imprensa russa, controlada pelos empresários que planejaram a eleição de Yeltsin em 1996, começou a bajulá-lo. Chernomyrdin chegou até a participar de alguns programas ocasionais de TV, respondendo a perguntas de telespectadores. Havia começado claramente a campanha extra-oficial do primeiro-ministro para o ano 2000 e ele parecia contar com o beneplácito do presidente.
Mas Chernomyrdin deveria ter-se informado melhor. Yeltsin jamais tolerou uma pessoa que estivesse de olho em seu posto. Na segunda-feira passada, o presidente russo voltou ao Kremlin depois de mais uma semana de afastamento por motivo de doença e mostrou a todos que, independentemente de sua idade ou de seu estado de saúde, ainda está de posse do cargo.
Afirmando estar cansado das disputas internas e da evidente incapacidade de seus assessores de resolver o marasmo econômico cada vez mais profundo do País, Yeltsin demitiu todo o gabinete. Chernomyrdin passou para a história, bem como o vice-primeiro-ministro Anatoly Chubais, que desde o início da era Yeltsin foi o símbolo totêmico do compromisso da Rússia com o capitalismo da propriedade privada e do mercado livre.
Yeltsin agiu como um czar, emitindo um decreto de cima para baixo, inesperadamente. Fora de um minúsculo círculo de assessores íntimos e influentes, liderado por sua filha Tatyana, ninguém previra isso. Depois de servir Yeltsin durante cinco anos e meio, Chernomyrdin só teve conhecimento da decisão do presidente 30 minutos antes do anúncio público feito pelo chefe.
O primeiro-ministro estava acabado - mas o trabalho de Yeltsin havia apenas começado. Funcionários do Kremlin esclareceram logo que o presidente não havia perdido o bom senso. Em Moscou, na terça-feira, Boris Nemtsov, vice-primeiro-ministro juntamente com Chubais, deu entrevistas confiantes, afirmando que o novo gabinete executaria rapidamente o programa de reforma econômica russa há muito tempo estagnado. Afirmou também que estaria no próximo gabinete a ser nomeado.
Isso fez pensar que Yeltsin poderia designar Nemtsov, o jovem ex-governador de Nizhny Novgorod, para o cargo de Chernomyrdin - ungindo-o efetivamente como seu herdeiro aparente para o ano 2000. No mesmo dia, Grigory Yavlinsky, líder do Partido Liberal conhecido como Yabloko (ou Maçã), voltou apressadamente a Moscou de uma viagem ao interior, dizendo que havia sido convocado pelo Kremlin. Talvez seria ele o novo primeiro-ministro? Qualquer desses dois nomes teria sido uma escolha eletrizante. Qualquer desses dois teria sido uma escolha digna de Yeltsin, que ficou de pé sobre um tanque para desafiar um golpe de Estado em 1991, aquele Yeltsin que, aos olhos de seus admiradores, sempre faz a coisa certa na hora do aperto.
Ao invés disso, durante quase 24 horas, só reinou o silêncio. Durante um dia inteiro, Yeltsin, esse homem cronicamente enfermo, de 67 anos, submetido a cinco pontes de safena, ficou a sós no Kremlin. Então, em seu encontro diário com a imprensa, na terça-feira, o porta-voz de Yeltsin, Sergei Yastrezhmsky, simplesmente desconcertado, anunciou que o presidente havia designado um primeiro-ministro interino. Era o ministro dos Combustíveis e Energia, Sergei Kiriyenko, de 35 anos, de aparência juvenil, amigo e colega de Nemtsov. Houve um espanto geral na sala. Sergei o quê? - gritou um repórter russo.
Quebra-galhosKiriyenko - Sergei Vladilenovich Kiriyenko - é oriundo da Abkhazia, na Georgia, ex-membro da Liga da Juventude Comunista (Komsomol) e mais recentemente ex-executivo de um banco e de uma companhia de petróleo de Nizhny Novgorod, onde conheceu Nemtsov. Quando Yeltsin nomeou Nemtsov vice-primeiro-ministro em março de 1997, este trouxe Kiriyenko consigo para Moscou. Kiriyenko o ajudava a administrar o Ministério dos Combustíveis e da Energia, um órgão profundamente conservador. Ele era o vice e o quebra-galhos de Nemtsov. Sua especialidade: resolver principalmente o maciço problema do atraso de salários e pagamentos nas indústrias de energia da Rússia, vitais para o País.
Numa entrevista de uma hora e meia com a Newsweek, Kiriyenko analisou vivamente o problema no Extremo Oriente. Baixo e de óculos, ele tem o aspecto confiante de um excelente universitário, altamente versado em economia de mercado. Com um pouco mais de traquejo, estaria claramente destinado a transformar-se numa força poderosa em algum governo futuro.
Mas, primeiro-ministro? Agora? Na sexta-feira passada, para espanto de todos, inclusive de Kiriyenko (Acreditem-me, disse ele numa entrevista, tudo isso é uma surpresa maior para mim do que para todos vocês), Yeltsin indicou formalmente seu nome ao Parlamento russo para ser o substituto de Chernomyrdin. Pela Constituição da Rússia, Yeltsin pode apresentar um candidato três vezes.
Se a Duma rejeitá-lo nas três vezes, o Parlamento é dissolvido e devem ser convocadas novas eleições. Na sexta-feira, Yeltsin disse seriamente à Duma que nem mesmo pensasse em rejeitar Kiriyenko e de fato os comunistas provavelmente o aceitarão, embora a contragosto. Em parte, o motivo é porque Kiriyenko é um nome politicamente tão indiferente que dificilmente poderia haver uma genuína indignação contra sua nomeação. Por outro lado, os comunistas também não estão dispostos a enfrentar uma nova eleição parlamentar.
No final da semana passada, Kiriyenko estava fazendo o máximo para cumprir seu novo papel. Saiu correndo para o aeroporto para receber o presidente da França, Jacques Chirac, e o chanceler alemão Helmut Kohl, que vieram a Moscou para participar de uma reunião de cúpula das três potências. A visão do velho e gordo chanceler, ao lado do qual o jovem e pequeno primeiro-ministro parecia um anão, fazia lembrar um enorme Papai Noel visitando as crianças, disse o empresário Boris Berezovsky.
Seria quase engraçado se não fosse tão sério. Yeltsyn disse na sexta-feira que o profissionalismo e a energia não são determinados por sua data de nascimento e os defensores do presidente acreditam que as decisões tomadas na semana passada são uma nova chance para reavivar as reformas econômicas, agora urgentemente necessárias à Rússia - principalmente a reforma tributária e uma disciplina fiscal mais rígida.
Nemtsov ressaltou também que as decisões representam o início do fim de uma era de capitalismo oligárquico na Rússia. Afirmou que nenhum dos membros do novo gabinete deve favores ao grupo de empresários que ajudou a eleger Yeltsin em 1966. Como prova, Nemtsov reiterou o compromisso do governo de autorizar companhias estrangeiras a competirem na compra da Rosneft, enorme companhia estatal de petróleo, que oficialmente foi posta em leilão na semana passada.
MovimentosO Kremlin tentou até apressar o fim do reinado de Chubais como o czar de fato da economia. Apesar de sua inteligência e competência como administrador, ele tinha se transformado num sério problema para Yeltsin. Os comunistas sempre o odiaram e no ano passado ele travou uma guerra furiosa e desgastante por causa de alguns acordos de privatização com poderosos empresários, como Berezovsky e o proprietário do Grupo Most, Vladimir Gusinsky. O afastamento de Chubais e de Chernomyrdin - um adversário do capitalismo de mercado livre adotado por Chubais - deixa a Nemtsov o campo livre para executar as tarefas que o combatido Chubais não poderia realizar, enquanto Kiriyenko deve absorver parte do furor político que certamente acontecerá.
Será que os poderosos oligarcas teriam exercido alguma influência no súbito e surpreendente afastamento de Chernomyrdin e de Chubais? Na segunda-feira passada, Moscou fervia de boatos. No dia anterior, Berezovsky voltou inesperadamente a Moscou de uma clínica médica na Suíça, onde se recuperava de um sério acidente com um snowmobile. Numa entrevista à TV, Berezovsky - outrora um aliado de Chernomyrdin - disse que o governo precisava de uma séria reestruturação.
No dia seguinte, usando exatamente estas mesmas palavras, Yeltsin demitiu o gabinete. Berezobvsky, por sua vez, desmentiu categoricamente ter tido qualquer influência nas mudanças e de fato parece improvável que ele tenha tramado isso desde o leito de um hospital na Suíça. Como afirmou com mais precisão Yavlinsky, do Yabloko, na semana passada, Yeltsin toma as decisões-chave sozinho, especialmente quando se trata da composição do governo.
De fato, a escolha de Sergei Kiriyenko como o primeiro-ministro da Rússia diz mais a respeito do homem que o escolheu do que a respeito do escolhido ou do futuro da reforma na Rússia. No final da semana, muitos analistas políticos concluiram que Yeltsin tinha finalmente revelado o que queria. Apagando Chernomyrdin e exaltando um tecnocrata anônimo e destituído de qualquer base política própria além de Nemtsov, Yetsin livrou-se efetivamente de dois possíveis candidatos à sua sucessão em 2000.
No sábado, Chernomyrdin, que continua sendo o líder de um partido chamado Nosso Lar é a Rússia, anunciou que vai concorrer à presidência nas próximas eleições. Mas, privado de uma plataforma diária e depois de ter presidido um governo impopular, ele não irá competir exatamente a partir de uma posição de força. Tudo isso está relacionado com Yeltsin no ano 2000, disse o consultor político Sergei Markov, de Moscou.
Em novembro do ano passado, os mais íntimos assessores de Yeltsin pediram silenciosamente ao Tribunal Constitucional que examinasse se o presidente está exercendo seu primeiro ou segundo mandato. A atual Constituição estipula que o limite para um presidente são dois mandatos. Mas os assessores mais ligados a Yeltsin dizem que ele foi eleito a primeira vez sob a antiga Constituição Soviética e por isso pode concorrer novamente - se for fisicamente apto e se assim o desejar.
O tribunal deverá decidir isso no final deste ano. Se apoiar a interpretação do primeiro mandato, as portas estarão abertas para que Yeltsin se candidate novamente. No ano 2000 ele estará com 69 anos - dez anos acima da expectativa média de vida para os homens na Rússia. Segundo muitos partidários de Yeltsin, quer na Rússia quer no Ocidente, a coisa certa a fazer daqui a dois anos seria deixar elegantemente a presidência e garantir uma sucessão democrática. Mas esta esperança pode ser ingênua.
No curso da história russa, apenas um czar abdicou formalmente ao trono: todos os outros ou morreram no cargo ou foram derrubados. A exceção foi Nicolau II que, num dia frio de fevereiro, em São Petersburgo, entendeu que já tinha permanecido demais no poder. Isso foi no ano de 1917.


