Se Mao Tse-Tung visse voltaria a morrer: no imenso Palácio do Povo que mandou construir para as reuniões do Partido Comunista Chinês, seus herdeiros deixaram que se organizasse dias atrás um desfile de modas dedicado a um tema muito pouco proletário - as peles.
Mas nestes dias de final de 1998, vinte anos depois do início das reformas de Deng Xiaoping que significaram a invenção ‘‘da economia de mercado socialista’’, ninguém se escandalizou com isso.
A China se converteu no ‘‘país mais capitalista do mundo’’, nas palavras do especialista francês Jean-Luc Domenach. E substituiu decididamente o igualitarismo dos anos de Mao pelo culto do dinheiro.
Segundo o artigo primeiro de sua constituição, a China continua sendo ‘‘um Estado socialista guiado pela classe operária e fundado na aliança dos operários e dos camponeses’’. Mas é difícil vislumbrar características socialistas nas centenas de automóveis de luxo que passam diariamente pela Praça Tiananmen sob o retrato de Mao, o homem que uniformizou com simples trajes azuis seus compatriotas.
‘‘O espírito capitalista está por toda parte, embora o Estado continue controlando a economia por meio de empresas nacionais’’, explica Jean-Pierre Cabestan, diretor do Centro de Estudos Francês sobre a China Contemporânea, com sede em Hong Kong.
Com a chegada de capitais estrangeiros e a abertura ao mundo, os dirigentes chineses adotaram uns após outros os métodos do capitalismo estigmatizados pelos teóricos do marxismo, da Bolsa aos lucros, passando pela propriedade privada e pela exploração do homem pelo homem.
Tudo isso sem sindicatos independentes, sem direito de greve nem de manifestação.
‘‘A economia de mercado socialista tem os inconvenientes do capitalismo sem as vantagens do socialismo’’, resume uma universitária. ‘‘As reformas beneficiaram os camponeses que recuperaram a terra. Nós, as pessoas da cidade, perdemos a segurança do emprego, de moradia e de assistência médica’’, afirma Chan Hong, pequinesa de 40 anos que acaba de ser aposentada pela empresa estatal onde trabalhava.

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