Cubas e Oviedo, os perdedores - José Antonio Pedriali
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de março de 1999
José Antonio Pedriali 
É evidente que o autor intelectual do assassinato do vice-presidente paraguaio Luis Maria Argaña queria não apenas eliminar um inimigo, mas criar um clima de comoção nacional que abalasse o que ainda resta do prestígio do presidente Raul Cubas Grau e, se possível, tirar-lhe o governo das mãos. Um atentado em plena luz do dia, no centro de Assunção e, eis a chave do enigma: praticado por um grupo de homens vestindo uniforme militar de camuflagem.
Quem ordenou a morte de Argaña queria que seu crime fosse associado aos militares, ou pelo menos a um setor das Forças Armadas - o setor aliado ao general reformado Lino Cesar Oviedo, a mais controvertida figura pública paraguaia desde a deposição do general Alfredo Stroessner, que governou ditatorialmente o país por mais de três décadas.
Oviedo foi um dos articuladores e o mais atuante dos militares que depuseram Stroessner, em 1989, e desde então viu seu prestígio crescer dia-a-dia, sobretudo junto às camadas mais pobres da população. Oviedo ajudou a depor Stroessner, Oviedo deu apoio ao governo do sucessor Andrés Rodriguez, Oviedo abriu caminho para a vitória de Juan Carlos Wasmosy em 1990. E Oviedo preparava-se para se tornar o sucessor de Wasmosy quando, no final de 1997, a Corte Suprema de Justiça vetou-lhe a candidatura, argumentando que ele teria se rebelado um ano atrás contra o presidente.
Com Oviedo foragido da Justiça e, portanto fora do páreo, o Partido Colorado, no poder desde a era Stroessner, forçou uma aliança estratégica e pragmática entre seus dois blocos majoritários para evitar o inevitável se não se apresentasse unido nas eleições de maio do ano passado - a derrota frente o Partido Liberal de Domingo Laino. O bloco de Oviedo aceitou a indicação de Raul Cubas Grau, indicado para vice na chapa do general, para a presidência da República, e a outra ala, stroessnista de carteirinha, impôs Argaña como vice.
Em meio a este imbróglio está o ex-presidente Juan Carlos Wasmosy. Acusado de corrupção por Oviedo ainda durante seu governo (94-98), ele moveu céus e terra para tirar de sua frente o general. Primeiro acusou-o de sedição e depois, cansado das idas e vindas da Justiça, que relutava em cassar os direitos políticos de Oviedo, submeteu-o a um julgamento sumário, e à sua revelia, num tribunal militar cujos membros foram escolhidos a dedo pelo presidente.
Wasmosy jamais perdoou Oviedo por ele ter, com suas denúncias, impedido que o Congresso autorizasse a construção de uma segunda ponte entre Ciudad del Leste e Foz do Iguaçu. A empresa construtora seria uma das tantas de propriedade de Wasmosy que, aliás, ganhou a licitação para administrar, cobrando pedágio, naturalmente, a rodovia entre Ciudad del Leste e Assunção. E Oviedo tornou-se um adversário inconciliável de Wasmosy, pois o ex-presidente fez desmoronar, talvez para sempre, seu sonho de tornar-se presidente da República.
Argaña exerceu um papel-chave na política paraguaia. Inicialmente como presidente da Corte Suprema, durante o regime de Stroessner, quando o Judiciário não passava de um braço da ditadura. Depois, como chanceler de Wasmosy, postulante derrotado à presidência e, por fim, líder do Partido Colorado e vice-presidente da República. Na guerra entre Oviedo e Wasmosy, aliou-se ao segundo e, mesmo na condição de vice, fez o que pôde e o que não pôde para minar o governo de Cubas. Foi justamente a ala do Congresso liderada por Argaña que estava se preparando para iniciar, nas próximas semanas, o processo de impeachment de Cubas Grau.
Cubas é, num primeiro momento, o mais prejudicado com o assassinato de Argaña. Livra-se de um poderoso adversário mas, em compensação, terá de enfrentar os ânimos compreensivelmente exaltados de uma nação e o empenho, agora redobrado, dos que querem tirá-lo do poder. Sua vinculação, e subordinação, ao general Oviedo são de conhecimento público e ele não só nada fez para livrar-se desse enigma como desdobra-se para reforçar o consenso de que quem realmente manda não é ele mas, sim, Oviedo.
Os executores de Arganã trajavam uniforme militar com uma finalidade explícita: dividir e induzir a opinião pública a suspeitar da participação de Oviedo ou de seus aliados militares no atentado. Oviedo pode - e tem - seus defeitos, mas não seria estúpido a este ponto. Os militares ligados a ele, e foram mais de 200 reformados por Wasmosy e mais tarde reintegrados por Cubas, também não chegariam a este ponto a não ser que fossem doentes mentais. Isso não exclui, no entanto, a hipótese - mera hipótese - de que alguns militares exaltados, ou mesmo doentes mentais, sejam os mentores e executores do atentado a Argaña.
Cubas terá momentos difíceis pela frente. Ele já exerce o governo com extrema fragilidade política, pois o Partido Colorado está dividido, e com sérias dificuldades econômicas, pois o Paraguai é o país mais prejudicado com a formação do Mercosul. O ritmo da atividade econômica paraguaia vem decrescendo nos últimos anos, com o consequente agravamento dos problemas sociais, e, após a desvalorização do real, teme-se pelo pior. Foi Cubas Grau o primeiro presidente do Mercosul a visitar Fernando Henrique após nossa desvalorização cambial, e novo encontro entre os dois chefes de Estado estava marcado para os próximos dias. Logo após a notícia da morte de Argaña, o presidente paraguaio prometeu, em rede nacional de televisão, não impor o estado de sítio. A medida acarretaria a exclusão imediata do Paraguai do Mercosul, mas uma pergunta se impõe: caso o presidente perca o controle da ordem pública, ele irá preferir continuar num bloco econômico que só está prejudicando seu país ou lutar até o fim, com todos os meios, seja quais forem, para manter-se no poder?
Se Cubas é, neste momento, o grande perdedor - e com ele seu mentor, o general Oviedo -, o grande vencedor desde já é o ex-presidente Wasmosy. Quanto mais fragilizado o governo de Cubas, mais fraco fica Oviedo e, com Argaña morto, a liderança dos colorados tenderá voltar às mãos de Wasmosy. E, quanto mais o fogo tomar conta do governo de Cubas Grau, mais serão fortes as chances de a labareda consumir também os inúmeros processos que o governo move contra o ex-presidente. E maior será a possibilidade de ele voltar ao poder.


