Diante da euforia popular causada pela visita do papa João Paulo II, a cúpula governista cubana discute suas implicações para a estabilidade do regime castrista. ‘‘Há, no Conselho de Ministros, vozes que desde o começo se opuseram aos entendimentos com o Vaticano’’, confidenciou uma fonte. ‘‘Agora as críticas diretas e indiretas de alguns bispos aprofundaram a polêmica.’
Segundo as fontes, ocorre o confronto entre um setor tradicionalista encabeçado pelo general Raúl Castro, ministro da Defesa, e os ‘‘reformistas’’, entre os quais se destacam Carlos Lage e Roberto Robaina. No meio se encontra Ricardo Alarcón, presidente da Assembléia Nacional.
Não é de surpreender que, no episcopado cubano, tenham surgido idênticas divergências, com alguns bispos - como o de Santiago - receando que a via da reconciliação escolhida pelo papa em troca de algumas concessões desmoralize a oposição que aumenta na ilha e enfraqueça a própria Igreja.
Na opinião do Vaticano, a visita conseguiu significativo fortalecimento dos espaços pastorais e o surgimento de um diálogo direto entre o Estado cubano e a Santa Sé. Os observadores concordam que essa nova relação e a espetacular publicidade mundial por meio das emissoras de televisão podem trazer consequências imprevisíveis.
Ninguém esconde a opinião de que é preciso apressar a colheita desses frutos, levando em conta que o presidente Fidel Castro e o sumo pontífice envelhecem e porque a revolução cubana precisa de mediadores de elevada estatura para sobreviver, ao menos como utopia.
Segunda-feira, o cardeal Jaime Ortega, líder da ala ‘‘reconciliadora’’, se pronunciou contra a linha dura. Na missa, que teve a presença do cardeal Bernard Low, de Boston, e cerca de 100 bispos e sacerdotes além de 150 cubanos exilados em Miami, Ortega declarou que a visita papal foi ‘‘um grande êxito’’.
Sobre as relações com as autoridades cubanas, Ortega disse: ‘‘A história às vezes segue em ziguezague e às vezes em espiral’’, mas sempre para cima e para frente, nunca para trás.’ E acrescentou: ‘‘As autoridades puderam ver que se pode colaborar, que a Igreja pode fazer algo, que podemos todos colaborar para o bem de todo o povo de Cuba, em algo concreto.’

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