France Presse e
Associated Press
De Nazaré
‘Uma mesquita próxima de uma igreja é um símbolo de união e harmonia’’, proclamava um grande cartaz em Nazaré, onde o ambiente entre cristãos e muçulmanos era tranquilo ontem, por ocasião da visita de João Paulo II.
Ao chegar à Basílica da Anunciação, no penúltimo dia de visita à Terra Santa, o Santo Padre foi aclamado calorosamente pela multidão, composta essencialmente por cristãos, mas entre os quais também havia muçulmanos. O papa João Paulo II fez uma comovente visita a Nazaré, cidade onde Jesus viveu até seus 30 anos. Ele rezou pela manhã uma missa para 2 mil fiéis na Basílica da Anunciação, construída no local onde, segundo a tradição católica, o anjo Gabriel contou a Maria que ela daria à luz o Filho de Deus.
A visita do pontífice coincidiu com o dia em que a Igreja Católica comemora esse evento. ‘‘Eu ansiava voltar à cidade de Jesus, para sentir-me uma vez mais em contato com este lugar’’, disse o papa, que havia estado em Nazaré em 1963, quando ainda era bispo.
Antes do final da missa, uns 500 muçulmanos rezaram em um terreno situado em frente à basílica, onde as autoridades muçulmanas pretendem construir uma mesquita.
Este projeto prejudica há um ano as relações entre muçulmanos e cristãos na principal cidade árabe de Israel, onde vivem 60 mil pessoas, em sua maioria muçulmanas.
‘‘A construção da mesquita não deve afetar as relações entre cristãos e muçulmanos’’, considera o imã da oração, o xeque Nazem Abu Salim.
‘‘Estamos dispostos a receber o papa, inclusive no local de nossa mesquita’’, afirmou, suavizando assim as declarações de outro dignitário muçulmano de Nazaré, que ontem havia advertido contra qualquer intervenção de João Paulo II nesta controvérsia.
A homilia do papa na missa de ontem não teve qualquer alusão a este conflito, que, contudo, ameaçou impedir sua viagem. ‘‘A visita do Papa unirá as duas comunidades’’, ponderou Sami Haddad, um estudante cristão de 20 anos. ‘‘O papa é um pai espiritual para todos nós e acredito que os muçulmanos reagirão favoravelmente a esta visita’’, adiantou.
Para monsenhor Riyah Abu Al Asal, arcebispo da Igreja Católica na Terra Santa, ‘‘cristãos e muçulmanos de Nazaré devem recuperar a razão’’.
Mas, adianta, ‘‘a solução deste problema está nas mãos do governo israelense’’, que autorizou a construção da mesquita.
Desde o início da viagem, na segunda-feira, o papa vem demonstrando relativa forma física, apesar de sofrer do mal de Parkinson. Mas ontem, no fim da missa, parecia extenuado.
A visita de João Paulo II a Nazaré foi cercada por um rígido esquema de segurança, o maior montado pelas autoridades israelenses desde o início da viagem. O grande número de homens designado para o serviço de segurança desagradou aos judeus ultra-ortodoxos, que protestaram contra a profanação do shabat, o descanso religioso judaico. João Paulo termina a viagem hoje em Jerusalém.