Crise econômica pauta eleição chilena
João Batista Natali
Agência Folha
De São Paulo
Há uma única unanimidade, por enquanto, nos prognósticos sobre as eleições presidenciais chilenas do dia 12, próximo domingo: os dois principais candidatos, Ricardo Lagos Escobar, 61 anos, governista de centro esquerda, e seu adversário da direita Joaquín Lavín Infante, 46 anos, têm um novo encontro marcado para o segundo turno de 16 de janeiro. Só dispensariam essa alternativa caso um deles obtivesse metade mais um dos votos.
A maioria absoluta dos hoje mais de 8 milhões de eleitores ocorreu em dezembro de 1993, quando o atual presidente, o democrata-cristão Eduardo Frei, obteve 58% e derrotou o direitista Arturo Alessandri (24,4%).
A última pesquisa eleitoral independente, feita pelo Centro de Estudos Públicos, dá Lagos e Lavín em empate técnico. Um outro instituto, o Gemines, suspeito de proximidade com a direita, dá a dianteira para Lavín e sua vitória em janeiro. Exatamente o oposto que o apontado por outro instituto, o Mori, suspeito de proximidade com a esquerda.
De certo, por enquanto, há o fato de a campanha eleitoral chilena ter apresentado como coquetel verbal uma mistura de recessão econômica, legislação trabalhista e o espectro do ex-ditador Augusto Pinochet (1973-1990), preso em Londres desde outubro de 1998 e correndo o risco de ser extraditado para a Espanha.
As chances eleitorais de Lavín, dirigente no Chile da Opus Dei, espécie de internacional do catolicismo conservador, cresceram na proporção inversa dos indicadores econômicos. O PIB chileno caiu 2,6% nos nove primeiros meses deste ano, o que foi traumático para um país que crescia a uma média superior a 7% desde os tempos do regime militar.
A recessão é facilmente explicável. O preço internacional do cobre, histórico produto de exportação, está em queda. Ao mesmo tempo, a Ásia e o Mercosul parceiros privilegiados desse global trader estão com suas economias desaquecidas.
Foi inevitável que o desemprego saltasse de 5% para 11,5% (agora recuou para 11%) e ressurgissem no Chile os bolsões de miséria silenciados nos anos 70 pela ditadura Pinochet.
O socialista Lagos, ex-ministro do presidente Frei e seu aliado político, tem dificuldades ao argumentar que a recessão é importada e que o Chile, ao ter crescido 1,1% em setembro, já saiu do fundo do poço. Bastou que Lavín imprimisse uma tonalidade social ao seu discurso ele fala com frequência da miséria e da pobreza para que atraísse uma franja de eleitores da Democracia Cristã.
Lavín, pinochetista de carteirinha que há um ano visitou o ex-ditador em sua prisão domiciliar londrina, foi paradoxalmente beneficiado pela ausência dele do território chileno.
O candidato conservador sentiu-se livre para não abordar o incômodo tema da ditadura e para se colocar como integrante do consenso democrático. O socialista Lagos vestiu a retórica oficial de que nenhum chileno pode ser vítima de uma concepção extraterritorial da Justiça. Mesmo defendendo o princípio, e não o cidadão Pinochet, deixou de utilizar plenamente o cartucho ideológico que armazenava.
Há quatro outros candidatos na disputa. Só a do Partido Comunista, Gladys Marín, tem chances de não ser mera figurante. Mesmo assim, deverá ficar em torno dos 7% dos votos.Queda do PIB neste ano e o aumento do desemprego de 5% para 11% equilibram disputa e colocam no páreo o candidato da oposição direitista
France PresseVoto a votoO socialista Ricardo Lagos, candidato governista, perdeu a dianteira e agora vai para disputa em 2º turno





