Crise econômica aumenta xenofobia
Vanessa Adachi
Agência Folha
De Buenos Aires
Conhecida como a mais européia das nações latino-americanas, a Argentina despertou para o xenofobismo, um sentimento latente nos países do Velho Continente. Ultimamente tem crescido a rejeição dos argentinos a imigrantes de países vizinhos, hoje o maior grupo estrangeiro no país.
Há duas semanas, ao discursar em uma manifestação contra a admissão da extrema direita na coalizão do governo austríaco, o ex-presidente Raúl Alfonsín alertou sobre o surgimento da xenofobia contra povos vizinhos dentro da própria Argentina. Está aparecendo uma xenofobia argentina contra cidadãos de países irmãos da América Latina , disse o ex-presidente em discurso diante da Embaixada da Áustria em Buenos Aires.
Para especialistas, o acirramento da xenofobia está ligado à crise econômica e ao desemprego da segunda metade do governo do ex-presidente Carlos Menem.
A rejeição aos imigrantes não é abraçada por partidos políticos ou grupos, mas está presente em manifestações públicas. Os cabelos negros, a pele morena e os traços indígenas dos forasteiros originários do Peru, da Bolívia e do Paraguai contrastam com as feições européias da maioria da população. Em partidas do Boca Juniors, clube de futebol mais popular do país, é comum os torcedores chamarem de negros os jogadores adversários de origem boliviana e peruana.
Outras manifestações são mais ostensivas. Tempos atrás, o sindicato que reúne os operários da construção civil espalhou cartazes por toda a Buenos Aires com os dizeres que não nos roubem o pão nosso de cada dia . Era uma campanha contra a contratação da mão-de-obra imigrante.
Pela primeira vez, o censo argentino, que será realizado em outubro, deverá mostrar que a comunidade de imigrantes de países limítrofes ultrapassou com larga vantagem a quantidade de imigrantes europeus, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), um organismo intergovernamental.
As estimativas da entidade indicam que os chamados imigrantes limítrofes estão ao redor de 1,1 milhão a 1,2 milhão de pessoas, o equivalente a 3% da população total do país. Os estrangeiros de outra origem predominantemente europeus são menos de 800 mil.
No último censo, de 1991, as duas comunidades apresentavam um certo equilíbrio. A entrada de europeus parou na década de 50, enquanto as populações latinas cresceram desde então, mantendo um fluxo constante , diz Lelio Marmora, representante da OIM para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.
A Argentina recebe cerca de 50 mil novos estrangeiros por ano, legais e ilegais. Cerca de 90% dos imigrantes são de países vizinhos. Boa parte não existem números oficiais permanece na ilegalidade, devido à facilidade de entrada e à burocracia para tirar o visto. Nas classes mais baixas, os imigrantes limítrofes são vistos como mão-de-obra concorrente. Nas classes médias, há a crença de que os imigrantes são delinquentes , diz o defensor público da cidade de Buenos Aires, Alejandro Nató, que cuida de casos de exploração dos trabalhadores imigrantes.
Na opinião de especialistas, o que atrai outros latino-americanos à Argentina é justamente a imagem de um país europeizado e o mais rico entre os países latinos de língua espanhola. Por causa da crise, essa imagem desbotou, contribuindo para a xenofobia: a Argentina enfrenta um desemprego de 14%, enquanto outros 40% dos trabalhadores vivem na economia informal. Antes, o imigrante chegava para contribuir para o crescimento do país. Hoje é visto como alguém que chega para roubar o trabalho do argentino , afirma Marmora.





