A aniquilação do rublo tem inconvenientes dramáticos.
Um de seus efeitos é também o de colocar, pela primeira vez desde a queda do Muro de Berlim, a questão do ‘‘liberalismo’’ e da ‘‘globalização’’. De todos os lados erguem-se vozes para indagar se o liberalismo, que há dez anos constitui a ‘‘Bíblia’’ da modernidade, é ou não responsável pela catástrofe russa.
Dois campos se defrontam: o primeiro denuncia fortemente o mercado, o FMI, Washington, a Escola de Chicago, etc. O segundo, ao contrário, acha que o desastre moscovita pede um liberalismo mais decidido, ainda mais puro que o de ontem.
No campo dos liberais, o jornal Figaro hasteia a bandeira e a faz tremular ao vento em todos os seus editoriais. ‘‘O fracasso da Rússia não é o fracasso do liberalismo. Como previu Alexander Solzhenitsin, a Rússia só se libertou do comunismo para se asfixiar sob seus escombros’’.
Mais estranho ainda é ver o liberalismo glorificado pelo maior escritor francês (e espanhol ao mesmo tempo), Jorge Semprun.
Semprun é esquerdista. Membro da Resistência durante a Guerra, foi deportado para os campos da morte.
Esta lembrança do passado de Semprun confere um tempero delicioso ao seu último artigo: ‘‘A Rússia tem necessidade de um Estado forte, clamam os mata-mouros do mercado, de um Estado que acabe com a mecânica das leis do mercado. Mais Estado, menos mercado, seria a palavra de ordem do dia na Rússia... Acreditamos porém que a ‘‘casa russa’’ foi destruída por 70 anos de Estado forte e pela ausência de mercado.’’

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