Crise ameaça unidade do governo Macchi
Avelino Alves - Agência Estado
e Inter Press - De Assunção
A crise militar que se abateu sobre o Paraguai, com os rumores de que no último domingo um grupo de oficiais teria tentado dar um golpe de Estado, apenas ilustra a atual crise vivida pelo denominado governo de unidade nacional. Sem respaldo político e social, a fragmentação do governo, segundo analistas, já estaria rondando a caserna.
O presidente Luis González Macchi enfrentou uma saia-justíssima no domingo ao retornar de sua visita a Cuba, onde participou da IX Cúpula Ibero-Americana. Círculos oficiais denunciaram a tentativa de golpe. Haveria planos inclusive de deter Macchi já no aeroporto. Embora 14 oficiais já estejam presos por insubordinação, o presidente não conseguiu até agora reunir as diversas forças que o compõem em torno de seu nome.
A liderança do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) tira antes de março seus ministros do gabinete de Macchi para que o partido possa concorrer à vice-presidência. Isso acontece num momento difícil para o governo já que a administração Macchi trabalha com perspectiva de aumento da inflação em 2000, além de problemas na balança de pagamentos.
Também, Félix Argaña, filho do vice-presidente assassinado, Luis María Argaña, já faz discurso como candidato para lugar de seu pai, em eleições no ano que vem. Isso irritou o Partido Colorado, majoritário no governo. Os colorados acham que um candidato a vice, com apoio do governo, deve sair da agremiação.
O jornal Notícias colocou mais lenha na fogueira ao garantir que, se Macchi caísse, o presidente do Congresso, senador Juan Carlos Galaverna, iria governar até as próximas eleições. Galaverna apressou-se em desmentir que tivesse qualquer conhecimento da conspiração militar. Eu tenho as coisas claras com o presidente e é maldito o jogo que se faz aqui. As conspirações no mundo moderno são públicas e não encontros na calada da noite, disse.
Num gesto que também denota fraqueza, o governo negou os rumores de golpe de Estado e garantiu que as prisões dos oficiais ocorreram por indisciplina. Um dos atos ilegais dos militares teria sido o de terem informado que o general da reserva, Lino César Oviedo, estaria no país. Oviedo atualmente vive exilado na Terra do Fogo (Argentina).
A situação social no Paraguai é um barril de pólvora. Esta semana o governo teve de receber um grupo de funcionários públicos. A categoria pode deflagrar em 1º de dezembro uma greve geral por tempo indeterminado. O funcionalismo é um reduto eleitoral dos colorados. Os sindicatos rejeitam os planos de privatizações e de reforma do Estado. O governo insiste e garante que as privatizações começam pela telefônica Antelco. Ao mesmo tempo, Macchi tem de acenar para todos os partidos, pedindo que permaneçam no governo para garantir a unidade.
De Buenos Aires surgem ventos animadores. O governo de Fernando de la Rúa, que deve ser empossado em 10 de dezembro, garante que extraditará Oviedo se receber pedido do governo paraguaio. Poucos escondem, no centro da Aliança (UCR-Frepaso), desejo de que o presidente Carlos Menem encontre outro país para Oviedo, tirando o abacaxi das mãos do novo governo.





