Paige Ann Herring, de 12 anos, e Natalie Brooks, de 11, foram enterradas ontem em Jonesboro, em funerais separados, num ambiente de choque e tristeza que uma das pessoas presentes descreveu como ‘‘quase que insurportável’’. Hoje, serão sepultadas Stephanie Johnson e Britanny Warner, ambas de 12 anos, e a professora de inglês Shannon Wright, de 34 - as outras três vítimas fatais dos dois meninos, que na última terça-feira, armados com 9 rifles de caça e camuflados de caçadores, acionaram o alarme de incêndio de sua escola, esperaram suas colegas chegar ao pátio e abriram fogo. Shannon colocou-se na linha de fogo para proteger seu alunos. Ela era casada e tinha um filho de 2 anos.
Vestidos com o uniforme cor de laranja e chinelos de plástico de prisioneiros, os dois jovens assassinos, Mitchell Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de 11, passaram seu terceiro dia na cadeia municipal, acusados de homicídio premeditado de cinco pessoas e agressão contras outras dez que ficaram feridas. Se fossem maiores, seriam, com certeza, condenados à pena de morte. Mas a lei de Arkansas não permite que menores de 14 anos sejam julgados como adultos e eles poderão ser castigados, no máximo, com a reclusão a um reformatório de jovens até completarem 21 anos.
Para não deixar o crime impune, o Ministério da Justiça, em Washington, continuou a examinar ontem a possibilidade de indiciar os dois meninos por violação de leis sobre porte de arma.
Scott Johnson, o pai de Mitchell, visitou o filho na quinta-feira e disse que ele está arrependido. ‘‘A verdade sobre o meu filho é que ele não é um monstro’’, disse Scott. Segundo o xerife Dale Haas, Mitchell pediu-lhe e recebeu uma Bíblia. ‘‘O outro chora muito, pede por sua mãe e diz que quer ir embora pra sua casa’’, informou Haas, referindo-se a Andrew, que roubou as armas usadas no crime da casa de seu avô.
Na África do Sul, onde está de visita, o presidente Bill Clinton falou sobre ‘‘a terrível tragédia na minha terra natal’’. Ele encerrou a entrevista coletiva que deu ontem com o presidente Nelson Mandela dizendo que tem rezado pelos que morreram e ficaram feridos. O presidente conversou por telefone com o governador de Arkansas, o prefeito de Jonesboro e com o diretor da Escola Intermediária Westside, o cenário da espantosa cena de violência.
Hoje, Clinton dedicará seu programa semanal de rádio ao assunto. Ele dirá que embora as estatísticas mostrem que os crimes violentos diminuiram nos EUA, nos últimos cinco anos, o problema tem aumentado entre os jovens. O presidente americano instruiu a secretária da Justiça, Janet Reno, a formar uma comissão de especialistas em violência nas escolas para estudar os episódios recentes e recomendar soluções.
Por sua vez, grupos de defesa do controle de armas de fogo redobraram seus esforços para tentar usar a tragédia de Jonesboro para mobilizar o apoio da opinião pública para sua causa. A organização Marcha Silenciosa convocou um dia nacional de manifestações, no primeiro domingo de maio, ‘‘para protestar em nome das 50 mil pessoas com menos de 19 anos que mortas a tiro nos Estados Unidos entre 1985 e 1995’’.
As estatísticas sobre homicídios nos EUA e em outros países avançados é um dos principais argumentos dos grupos que militam contra a política de proliferação de armas que é praticada nos EUA sob a proteção do ‘‘direito de portar armas’’, que está consagrado na Constituição do país. Em 1996, 13 mil pessoas morreram nos EUA em crimes de homicídio que envolveram o uso de armas de fogo. Destas, 9.390 foram assassinadas a tiros disparados de pistolas e revólveres.

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