A instabilidade política no Peru aumentou ontem com a falta de notícias oficiais sobre a condição do chefe informal do Serviço de Inteligência do Peru (SIN) , Vladimiro Montesinos, pivô da crise.
Os rumores iam de um extremo ao outro. Falava-se que ‘‘Vlad’’, como é conhecido, fora preso, sem ordem judicial, a mando dos militares, na sede do SIN, em Las Palmas. Alguns integrantes da oposição, no entanto, diziam que ele não estava detido, mas preparando um golpe de Estado.
O primeiro-ministro, Federico Salas, negou que Montesinos estivesse preso. Disse apenas que ‘‘ele está em Lima’’, sem precisar se continuava à frente do SIN.
Mas boatos sobre a suposta prisão do principal assessor do presidente Alberto Fujimori voltaram a ocupar as conversas dos analistas políticos quando familiares de Montesinos entraram, na Justiça, com pedido de habeas corpus para garantir que o chefe do SIN não fique detido sem ordem judicial. O pedido foi negado.
Cerca de 200 manifestantes anti-Fujimori fizeram vigília durante todo o dia de hoje na casa de Montesinos e na sede do SIN.
A reportagem presenciou vários grupos de manifestantes caminhando para a praça San Martín para uma manifestação convocada pela oposição para às 18 horas de ontem (20 horas em Brasília).
Na quinta-feira passada, uma TV local mostrou um vídeo no qual Montesinos aparece pagando US$ 15 mil a um congressista de oposição para que passasse a votar com o governo.
As imagens detonaram a crise. Dois dias depois, o presidente Fujimori anunciou que convocaria nova eleição geral ‘‘no prazo mais breve possível’’, à qual não iria se candidatar. Também anunciou que acabaria com o SIN.
A falta de apoio interno e externo fez com que Fujimori – há dez anos à frente da Presidência do Peru – decidisse abrir mão do seu terceiro mandato consecutivo, para o qual foi eleito em maio.
Esse é o único consenso entre os analistas que acompanham a crise política no Peru. Os bastidores dessa história, porém, continuam sendo um mistério.
A reportagem apurou que diplomatas brasileiros que acompanham o desenrolar da crise no Peru interpretam a surpreendente posição de Fujimori de convocar eleições gerais como sinal de que o presidente não dispunha mais do apoio incondicional de seus principais assessores civis e militares.
Soma-se a isso o aumento da pressão do governo dos EUA, da OEA (Organização dos Estados Americanos) e do Canadá. As declarações públicas de repúdio ao escândalo vindas do exterior foram a senha para a oposição peruana.
Após a divulgação do vídeo, os partidos de oposição tomaram uma posição conjunta: enquanto Montesinos ficar no cargo, não comparecerão às sessões do Congresso e permanecerão fora da mesa de negociações com a OEA e o governo.
Em conversa com a reportagem, Eliane Karp – principal estrategista do líder da oposição, Alejandro Toledo – defendeu que Montesinos seja julgado por corrupção. ‘‘Essas coisas têm de funcionar de forma civilizada e não como numa selva. Montesinos tem de dar conta de que ele acabou.’’
O vazamento do vídeo também demonstra que Montesinos enfrentava adversários poderosos no serviço de inteligência. As imagens foram gravadas, com uma câmera escondida, dentro do próprio gabinete do chefe do SIN, na ultraguardada base de Las Palmas.
Provavelmente, a câmera era do próprio SIN, o que dá conteúdo aos rumores de que Montesinos foi ‘‘rifado’’ por alguns de seus assessores mais próximos.
A suspeita ganhou forma ontem, quando a Marinha vazou informações de que o SIN estava procurando os cinco oficiais encarregados da guarda das fitas gravadas no gabinete de Montesinos.
Quatro dos cinco oficiais, todos da Marinha, chegaram a ser interrogados. O quinto foi poupado porque encontrava-se numa base da Marinha à qual os agentes do SIN não tiveram acesso, por determinação do comando da Força.
Ex-capitão do Exército, Montesinos não recebeu nenhuma declaração de apoio dos seus colegas militares – outro indício de que o principal assessor de Fujimori já não contava com apoio incondicional de seus antigos parceiros.
Outra especulação que se fazia ontem era que Fujimori decidiu deixar a Presidência porque fora informado de que outros vídeos estão em mãos dos adversários.
Líderes dos nove partidos da oposição firmaram ontem um documento no qual estabelecem uma agenda mínima para negociar com o governo uma saída para a crise. As condições para o diálogo passam pela desativação do SIN, o estabelecimento de um governo de transição a partir de agora, a cassação de congressistas suspeitos de terem recebido subornos para passar da oposição para a situação, a nomeação de novos membros para os dois principais organismos da Justiça eleitoral - o Jurado Nacional de Eleições (JNE) e o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) - e a realização das eleições no menor prazo possível.
Num recuo em relação à posição que assumira no dia anterior, quando qualificou como ‘‘possível’’ candidatar-se à sucessão de Fujimori, o primeiro-vice-presidente do país, Francisco Tudela, descartou a possibilidade de disputar qualquer cargo nas eleições. ‘‘Posso vir futuramente a ser candidato em qualquer eleição, mas não nessas próximas eleições gerais’’, disse. Ao mesmo tempo, Tudela propôs a realização de uma consulta popular para estabelecer as regras da nova votação.

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