Cresce oposição a apoio aos EUA no Paquistão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de setembro de 2001
Rana Jawad <br> France Presse <br> De Islamabad 
A oposição ao apoio do Paquistão em uma ação militar dos Estados Unidos contra o Afeganistão ganhou intensidade ontem. As embaixadas ocidentais no Paquistão começaram a organizar a partida dos familiares de seus diplomatas e de parte do pessoal não-essencial do país por temor de distúrbios, no caso de uma ação militar americana contra o vizinho Afeganistão.
A principal organização religiosa do Paquistão (país com 140 milhões de habitantes), o Conselho dos Ulemás, convocou uma ''guerra santa'' (Jihad) contra Washington se os EUA atacarem o Afeganistão. ''É o dever de todos os muçulmanos do mundo proteger os países muçulmanos e os muçulmanos. O povo do Paquistão e seus ulemás não deixarão que os Estados Unidos destruam os interesses e a identidade do Paquistão e do Afeganistão'', diz um fatwa (decreto religioso) do Conselho, transmitido à France Presse.
O vice-presidente do Conselho de Ulemás paquistaneses, Maulana Naseerudin, anunciou a organização de uma manifestação em todo o país para amanhã, assim como conferências com o tema ''Morte aos Estados Unidos'' para protestar contra a promessa de ''cooperação total'' do presidente paquistanês Pervez Musharraf com a iniciativa americana de guerra mundial contra o terrorismo.
''Advertimos o presidente Musharraf para que se atenha aos sentimentos do povo paquistanês antes de tomar alguma medida que seja em favor dos Estados Unidos'', acrescenta o comunicado. O texto estima que o presidente George W. Bush cometeu um grave erro ao utilizar a palavra ''cruzada'' contra o terrorismo.
''Ao anunciar uma 'cruzada', o presidente Bush chocou toda a comunidade muçulmana e deve retratar-se de suas palavras'', assinala. Este conselho é a instância islâmica mais importante do Paquistão e compreende os ''sábios'' de todas as tendências sunitas (majoritários no Paquistão).
Maulana Sami-ul Haq, presidente do Conselho de Defesa do Paquistão, que agrupa 35 organizações islâmicas, confirmou que seus seguidores terão de responder a um chamado do Taleban por uma guerra santa contra os Estados Unidos. Numa entrevista coletiva na cidade de Rawalpindi, uma cidade nas proximidades de Islamabad, ele também afirmou que seu país pode se afundar numa guerra civil caso o Afeganistão seja atacado.
Ontem, manifestantes queimaram bandeiras americanas e bonecos representando Musharraf e o presidente dos EUA, George W. Bush, na cidade sulista de Karachi e em Peshawar, a capital da província Fronteira Noroeste que é um bastião de apoio a Bin Laden e ao Taleban. Musharraf, que tomou o poder num golpe de Estado incruento em 1999, está pressionado entre as exigências dos EUA e da oposição interna. Apesar de a maioria dos paquistaneses criticar os ataques terroristas contra os EUA, muitos têm Bin Laden como um herói.


