Cowboys gays vencem Festival de Veneza
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domingo, 11 de setembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Veneza, especial para a Folha 
Foi afinal um resultado justo, feitas as contas. E que acabou deixando em vantagem o cinema americano de recorte mais independente. Ganhou ''Brokeback Mountain'', bela e intensa love story gay do taiwanês Ang Lee (desde 1978 radicado nos Estados Unidos). Como também ''Good Night. And Good Luck'', poderia ter vencido esta 62 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, encerrada no sábado à noite em cerimônia sonolenta, desta vez sem gafes significativas, e formatada sob medida pela Rai (rede de televisão italiana) para uma enxuta transmissão ao vivo exclusiva para a Europa.
O elegante e muito atual filme de Clooney, sobre a responsabilidade de quem detém o poder e da imprensa que denuncia os desmandos deste poder, acabou ganhando com justiça os prêmios de roteiro (do próprio Clooney em parceria com o produtor Grant Heslov) e de ator para David Strathairn, que agradeceu em italiano bem razoável. A presença de Clooney, único superstar presente e sempre fisicamente muito próximo do público que se espremia à porta do Palazo del Cinema, garantiu o glamour. Ao receber o prêmio, o ator disse o roteiro de fato tinha sido em grande parte escrito há 51 anos pelo próprio personagem biografado, o jornalista televisivo Edward Murrow. E reafirmou a questão da responsabilidade e da ética dos jornalistas em todo o mundo.
Os maiores derrotados do festival foram os muitos títulos trazidos do Oriente com muito empenho pelo diretor da mostra, Marco Muller. Para os críticos, inclusive, o pior entre todos os concorrentes foi o auto-indulgente ''Takeshi's'', do ator-diretor Takeshi Kitano. O filme dirigido por Fernando Meirelles, ''O Fiel Jardineiro'', embora muito elogiado por crítica e público, ficou fora da premiação. O mesmo para Lírio Ferreira e seu ''Árido Movie'', na seção paralela ''Orizzonti''.
O Prêmio Especial do Júri acabou nas mãos do também americano Abel Ferrara com ''Mary'', uma contemporânea releitura mística da história de Maria Madalena, meta-cinema bem ao feitio do cineasta, considerado um maldito nos círculos cinéfilos mais fechados. Condição que o sempre estranho e deslocado Ferrara confirmou no palco diante de seu troféu: ''Mas é vidro, não é ouro !''
O premio de direção, o Leão de Prata, foi para o francês Philippe Garrel pela consistente visão existencial do período pós Maio de 68 no filme ''Les Amants Reguliers''. Com toda a certeza, um prêmio defendido por aquele segmento mais cabeça do júri - os diretores Claire Denis, Amos Gitai, Acheng Zhong e Edgar Reitz. ''Les Amants'' foi distinguido também pela melhor fotografia (em preto e branco) de William Lubtchanksy, que recebeu o prêmio de melhor contribuição técnica.
O Prêmio Marcello Mastroianni, para revelação de ator ou atriz, ficou também com os franceses. Quem levou foi Menothy César como o jovem haitiano que reconforta sexualmente as maduras turistas americanas em ''Vers le Sud'', de Laurent Cantet.
Já os italianos, que de fato não mereceram estar entre os premiados, acabaram ficando com a recompensa-consolação (discutível, e muito) para melhor atriz. Giovanna Mezziogiorno ficou com a Coppa Volpi para a categoria, pelo trabalho no filme ''La Bestia nel Cuore''. E por conta desta média do júri, a francesa Isabelle Huppert, que tem grande interpretação em ''Gabrielle'', ficou com um surpreendente (porque não previsto) ''Leone Speciale'', justificado como prêmio ''pela sua extraordinária contribuição ao cinema''. Distinção idêntica somente tinha sido dada há vinte anos, ao cineasta Manoel de Oliveira - o júri da época com certeza achou que o já velho mestre português (então com 78) estava encerrando carreira: aos 98, ele mostrou aqui este ano o ótimo ''Espelho Mágico''.
Na seção ''Orizzonti'', os premiados foram ''East of Paradise'' (ficção ) e ''The First on the Moon'' (documentário). O prêmio Opera Prima ''Luigi De Laurentiis'' para longa metragem de estréia foi para ''Tzameti''.


