Corte rejeita pedido de asilo para Elián
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de junho de 2000
Mônica Yanakiew Associated Press De Washington 
Meio ano depois de ter sido resgatado de um naufrágio, próximo à costa da Flórida, o menino cubano Elián González voltou a ocupar o horário nobre dos canais de tevê e as primeiras páginas dos jornais dos Estados Unidos. Ontem, a justiça americana determinou que a criança de seis anos não tem o direito de pedir asilo político, o que iria contra a vontade do pai, Juan Miguel González, que quer levá-lo de volta a Cuba.
A decisão de ontem foi uma derrota para os parentes de Elián em Miami, que acolheram o menino em sua casa depois do naufrágio e há seis meses iniciaram uma batalha judicial e política para mantê-lo nos EUA.
Poderia ter sido o último capítulo de uma novela, que já custou ao governo americano quase US$ 1,5 milhão, fez mais sucesso na televisão do que a cobertura da morte de Lady Di, e envolveu desde o presidente dos EUA, Bill Clinton, até os candidatos à sua sucessão em novembro.
Mas não foi. Em vez de ter embarcado para Cuba ontem (acompanhado pelo pai, a madrasta, o meio-irmão e um séquito de colegas de sua escola em Cuba, suas mães e sua professora), Elián terá que permancer pelo menos outros 14 dias nos EUA. É prazo, determinado pela justiça americana, para que seu parentes em Miami recorram mais uma vez - desta vez à Suprema Corte.
A novela de Elián - filmada em pelo menos cinco cidades dos EUA e de Cuba - começou no último dia 25 de novembro, quando dois pescadores encontraram o menino atado a uma câmara de ar e boiando no mar. Ele estava num barco com um grupo, que fugiu de Cuba em busca de uma vida melhor na Flórida. Apenas um casal e Elián chegaram com vida: no naufrágio morreram 11 pessoas, entre elas a mãe e o padrasto do menino.
Poderia ter sido uma história igual a muitas outras. Mas adquiriu uma dimensão política especial - a tal ponto que ontem Clinton encontrou espaço, na sua apertada agenda, para acompanhar o caso. Em Berlim - a segunda escala de uma viagem para discutir, com os líderes europeus, desde disputas comerciais até os rumos da economia mundial e a paz no Oriente Médio - ele manifestou sua satisfação com a decisão da corte.
Esse é um caso onde está em jogo a importância da família e os laços entre um pai e seu filho, disse Clinton. Ele voltou a apoiar a decisão do Departamento de Justiça americano de entregar Elián a Juan Miguel, que viajou para Washington há dois meses para buscar seu filho.
Não é o que pensam o tio-avô de Elián, Lázaro González, e sua filha Marisleysis, que acolheram o pequeno naúfrago em sua casa em Little Havana (o bairro cubano em Miami). Desde o último dia 28 de novembro, quando Juan Miguel soube que o filho estava vivo e pediu ao governo americano que enviasse a criança de volta a Cuba, eles iniciaram uma campanha para mantê-lo nos EUA.
Com o apoio da poderosa comunidade de exilados cubanos da Flórida e políticos (de olho no voto latino nas eleições de novembro), os parentes de Elián recorreram à justiça. Argumentam que esta não é uma disputa familiar pela custódia de um menor: é uma missão, quase que religiosa, para salvar uma criança inocente das garras do ditador de Cuba, Fidel Castro. Por isso exigiram que o menino tivesse o direito de comparecer perante um tribunal, sem a presença do pai, para exigir asilo político.
Ontem, sua prima em segundo grau Marisleysis disse estar decepcionada com a decisão da justiça americana. Mas disse ter fé em Deus, apelando para as emoções dos cubanos protestando em Miami, que consideram Elián como um segundo Messias.
Para muitos, o menino foi salvo do mar pela Virgem Maria, para que pudesse escapar do comunismo e viver em liberdade nos EUA. Pelo visto, será difícil lograr um acordo entre a justiça americana e a justiça divina.


