Corrupção causa golpes de estado
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de junho de 2000
France Presse De Suva 
A corrupção endêmica e a incompetência dos governos, mascaradas por conflitos étnicos, são as principais causas dos golpes de estado que afetam atualmente as ilhas Salomão e Fiji, no Pacífico Sul. Nas ilhas Fiji tudo começou em 19 de maio, quando George Speight, um empresário arruinado, ajudado por vários homens armados, tomou como reféns o primeiro-ministro Mahendra Chaudry, de origem indiana, e cerca de 30 parlamentares.
Os golpistas disseram que atuavam em nome da população indígena (de origem puramente fijiana). Os autóctones se consideram explorados pela população de origem indiana, que representa 43% da população e controla completamente a economia do país.
Nas ilhas Salomão, uma guerra de guerrilhas entre duas milícias étnicas rivais, que combatem há 18 meses, levou na segunda-feira ao sequestro do primeiro-ministro, Bartolomew Ulufaalu, por rebeldes de um desses movimentos, as Forças do Águia de Malaita (MEF).
Desde o princípio de 1999, a ilha de Guadalcanal é cenário de combates entre duas facções rivais, as MEF responsáveis pela tentativa de golpe - e os IFF, Combatentes pela Liberdade de Isatabu (nome original da ilha), que querem expulsar os proprietários de plantações, vindos da ilha vizinha de Malaita. Os conflitos deixaram pelo menos 100 mortos e obrigaram 20 mil pessoas de uma população de 300 mil a fugir.
As tentativas de golpe nas ilhas Fiji e Salomão parecem ter motivos étnicos, mas estes não são mais do que uma fachada para as profundas divisões e lutas pelo poder nas sociedades tradicionais. Em Fiji os melanésios, autóctones, falam a mesma língua e estão agrupados em clãs, que têm uma longa história de conflitos entre eles e com a comunidade de origem indiana, um grupo que surgiu com a colonização britânica.
Chegados no fim do século 19, para explorar a cana-de-açúcar, os indianos despertaram rancores e ciúmes dos fijianos autóctones, que temiam ser dominados por essa comunidade depois da sua independência, em 1970. Uma Constituição de 1987 deixava os indianos fora do poder político, e só foi derrubada em 1997.
Nas ilhas Salomão, a origem dos conflitos remonta à batalha de Guadalcanal, em 1942, quando o exército americano expulsou os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Para ajudar na logística da invasão, os americanos recrutaram moradores da ilha vizinha de Malaita. Depois do fim da guerra os malaitanos ficaram em Guadalcanal, onde sua prosperidade rapidamente criou conflitos com a população autóctone.
Mas tanto em Fiji como nas ilhas Salomão, as verdadeiras razões das tentativas de golpe não são o direito das populações indígenas.
Nas ilhas Salomão o primeiro-ministro Bartholomew Ulufaalu chegou ao poder, no ano passado, depois da morte de Salomou Mamaloni, criador de um esquema de corrupção que esgotou as florestas, a mineração e a pesca. Mamaloni criou um grupo financeiro com importantes interesses em Guadalcanal e que manipulou os conflitos étnicos latentes na ilha para derrubr Ulufaalu, que tinha lançado uma política de reformas e de transparência.
Um esquema parecido aconteceu em Fiji, onde a situação econômica da população autóctone não melhorou realmente entre 1987 e 1997, período de governo de Sitioveni Rabuka e de vigência da Constituição que impedia os fijianos de origem indiana de chegarem ao poder.


