Correntes migratórias riscam o planeta
David Moisés
Agência Estado
Sedentarismo é uma das principais características do Homem moderno, mas foi no Século XX que as correntes migratórias multiplicaram-se sobre o planeta de maneira jamais vista. A era da aldeia global começa sob o maior deslocamento humano em massa de toda a História, a Grande Migração Atlântica, e termina com o Mapa Mundi riscado por setas indicando a trajetória de trabalhadores em busca de emprego nos países mais ricos de cada região. É a atração constante exercida pelos núcleos de concentração de riqueza, resume o geógrafo Milton Santos, da USP.
Mas há também as levas de refugiados e expatriados, a maior delas gerada na Segunda Guerra Mundial. Foram pelo menos 16 milhões de pessoas expulsas de seus lares, no período de opressão nazista e após a rendição alemã. E é também no Século XX que ocorre uma impressionante troca de populações, entre Índia e Paquistão. Nestes 99 anos, a Humanidade redesenhou fronteiras mas ganhou, por outro lado, uma mobilidade incontrolável. Cada vez mais os limites territoriais são substituídos por divisas culturais, étnicas, religiosas e, principalmente, por perímetros de mercado.
Novo Mundo Foi a saturação do mercado de trabalho na Europa que provocou a segunda -e maior - onda da Grande Migração Atlântica, iniciada em 1840. Nas duas últimas décadas do Século XIX e na primeira do Século XX, 17 milhões de europeus rumaram para a América, expulsos pela mecanização crescente da produção. E de 1880 a 1935, já eram quase 35 milhões, conta Oswaldo Truzzi, coordenador de História da Imigração do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp). Destes, 25 milhões foram para os Estados Unidos, 5,5 milhões para a Argentina e 4 milhões para o Brasil.
Estes europeus são as primeiras sobras do progresso. Assim o geógrafo Milton Santos define a massa trabalhadora que perde função e emprego a cada avanço tecnológico na produção. Da Revolução Industrial em diante, o Homem não deixará de migrar para buscar trabalho numa nova fronteira econômica, e a primeira delas é o Novo Mundo. Só as guerras mundiais e a crise de 1929 reduziram o fluxo desta onda migratória, lembra a geógrafa Rosa Ester Rossini, também da USP.
Longe e perto Neste mesmo período, os japoneses faziam a sua própria corrente, com levas proporcionalmente consideráveis. De 1880 até a Segunda Guerra, navegaram para o Novo Mundo 445 mil pessoas. Destas, 240 mil vieram para a América Latina e 205 mil, para os Estados Unidos. Outras 205 mil lançaram-se no Pacífico e fixaram-se no Havaí. O êxodo começou com a implantação de uma economia de mercado e a destruição das comunidades rurais, relata o pesquisador japonês Keishi Nakamura. Destes agricultores desterrados, os primeiros a aportar no Brasil seriam os 781 passageiros do Kasato-maru, em 1908.
Mas o Japão se destaca neste período também pela migração constante em direção aos países próximos. Acompanhando a política expansionista e as invasões, milhares de japoneses fixaram-se na China e Sudeste Asiático. Para se ter uma idéia, ao fim da Segunda Guerra havia 3,5 milhões de cidadãos japoneses na China, Coréia, Taiwan e outros países da região, explica Nakamura. De volta, eles provocaram uma séria pressão populacional, e muitos encontraram no Brasil uma nova fronteira. A rápida reconstrução econômica, porém, abriu empregos e conteve o novo êxodo.
Outras razões As ondas migratórias que marcaram as primeiras décadas terminam justamente quando começa o segundo capítulo dos deslocamentos humanos neste século. O período 1933-49 concentra cinco episódios em que a causa dos êxodos não está mais na saturação das fontes de subsistência, e sim nas diferenças étnicas e culturais, na ideologia e nos interesses econômicos. Este capítulo começa com a ascensão nazista na Alemanha e a perseguição a judeus e opositores do regime.
Os nazistas expulsaram pelo menos 7 milhões de pessoas entre os últimos anos da década de 30 e o auge da Segunda Guerra. Destes, 6 milhões acabariam aprisionados em territórios dominados por nazi-fascistas e exterminados em campos de concentração. Assim, o conflito transcontinental deflagrado a partir de 1939 estancava as migrações atlânticas mas desencadeava movimentos desesperados de fuga.
Com os judeus salvos do massacre surge outra onda de migrações neste período. Em 1948, eles começam a deixar a Europa para viver em seu próprio país, o recém-criado Estado de Israel, relata o historiador Oscar Beozzo, da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina. Iniciava-se uma corrente duradoura. Até 1986, cerca de 1,4 milhão de judeus de todas as partes do mundo haviam chegado a Israel. Entre 89 e 90, uma grande leva de 200 mil deixaria a antiga União Soviética, pressionados pelo ressurgimento do nacionalismo étnico em meio à grande reestruturação que retalhou o gigante socialista.





