Mais da metade dos desaparecidos políticos nos primeiros anos da ditadura de Augusto Pinochet foram lançados ao mar, com chumbo atado a seus ventres para que afundassem rapidamente. É o que diz uma carta da Igreja Evangélica à qual a AP teve acesso e que foi divulgada ontem por familiares das vítimas.
Segundo a carta, os presos políticos desde 1973 foram levados a cidades e portos do norte do país e ‘‘lançados ao mar, após um perverso tratamento clínico, que consistia em injetar em seus corpos substâncias líquidas que estimulavam os peixes a comer carne humana e (para) que a parte óssea se desintegrasse em no máximo cinco dias’’.
E por fim, ‘‘para garantir que os corpos chegassem à máxima profundidade no mar’’, diz a carta, ‘‘colocavam nos ventres dos cadáveres placas de chumbo para assegurar seu afundamento, de modo a impedir que fossem encontrados’’.
Nos primeiros meses após o golpe militar de 11 de setembro de 1973, ocorreram os piores abusos da ditadura, e nesta época se registrou o maior número de desaparecidos – que, segundo cifras oficiais, são pouco mais de 1 mil, ou pouco menos de 2 mil, segundo outras fontes.
‘‘As pessoas que passaram por este processo corrrespondem em porcentagem a mais de 60% do total de detidos desaparecidos’’, diz a carta de quatro páginas, cujo original foi entregue ontem pelo pastor Enrique Vilches ao presidente Ricardo Lagos. Ontem, o Grupo de Familiares de Detidos Desaparecidos recebeu por fax a carta, com todos os seus detalhes.
As informações recebidas por Lagos, referentes ao destino de 780 desaparecidos, foram colhidas por representantes das Igrejas Evangélica e Metodista junto a militares da ativa e da reserva que, protagonistas ou não dos episódios, puderam manter seu anonimato graças ao acordo da Mesa do Diálogo, acertado entre o governo, as Forças Armadas e várias organizações chilenas.

mockup