Os líderes da Coréia do Norte e do Sul assinaram ontem, em sua histórica reunião de cúpula, um acordo visando superar um conflito de meio século na fortemente armada península Coreana e se comprometendo a trabalhar pela eventual reunificação dos dois países.
Os dois líderes também concordaram em trabalhar pela reunificação de milhares de famílias que foram separadas pela Guerra da Coréia, promover uma nova cúpula, e providenciar investimentos sul-coreanos desesperadamente necessários para a pobre economia do Norte.
Entretanto, o acordo visando amenizar meio século de tensão na península Coreana não fez menção a duas grandes preocupações: a antiga exigência do Norte de que os Estados Unidos retirem seus 37 mil soldados da Coréia do Sul e os programas nucleares de Pyongyang.
A reunificação em si é uma enorme tarefa que alguns observadores dizem poder levar décadas, mesmo se o acordo for implementado pelos dois países.
Depois da assinatura na noite de ontem em Pyongyang, a capital da Coréia do Norte, o presidente Kim Dae-Jung, da Coréia do Sul, e o líder nortista, Kim Jong-il, tinham largos sorrisos, apertaram as mãos com vigor e brindaram com champanhe.
Num discurso, Kim Dae-Jung elogiou seu colega por tê-lo ajudado a alcançar um ‘‘histórico acordo’’ e disse que os dois devem ‘‘agir conjuntamente no caminho da reconciliação e cooperação’’.
O acordo é mais detalhado do que outros fechados por autoridades de menor escalão dos dois países em 1972 e 1991.
Aqueles acordos, que também falavam de reconciliação e uma eventual reunificação, foram rapidamente abafados por renovadas hostilidades.
No primeiro encontro formal entre os dois líderes no início da cúpula hoje, Kim Jong-il surpreendeu novamente o mundo ao fazer piadas e dar risadas.
Vestindo sua jaqueta de estilo Mao e sentado na frente de Kim Dae-Jung à mesa de conferência, Kim Jong-il elogiou seu colega por ter tomado a corajosa decisão de viajar para a Coréia do Norte pela primeira vez na terça-feira.
Kim criticou o fato de ser retratado como vilão no Ocidente, onde os Estados Unidos consideram seu país fortemente armado como uma nação perigosa, pária.
‘‘A mídia ocidental especula porque eu levo uma vida reclusa, e ela disse que um recluso fez sua primeira aparição pública’’ na terça-feira ao receber Kim Dae-Jung no aeroporto de Pyongyang. ‘‘Mas eu visitei a China e a Indonésia no passado, e também fiz muitas viagens não oficiais ao exterior. Assim, eu não entendo por que sou descrito como um recluso’’, afirmou ele ao presidente Kim, enquanto a televisão sul-coreana transmitia seus comentários para todo o mundo.
‘‘O noticiário ocidental disse que a visita do presidente Kim me ajudou a sair da reclusão’’, continuou ele, provocando risadas de seu colega e de outras autoridades sulistas e nortistas sentadas à mesa.
Kim Dae-Jung, que parecia mais sério, replicou: ‘‘Parece que você sabe de tudo’’, provocando novas risadas.
Kim Jong-il, que assumiu o poder em 1994, quando seu pai, o fundador da Coréia do Norte Kim Il Sung, morreu, já visitou pelo menos por duas vezes a China, a última no mês passado e a primeira em 1983. Ele também visitou a Indonésia com seu pai em 1965. Estudiosos dizem que ele nasceu na Rússia e acredita-se que tenha viajado àquele país diversas vezes desde que mudou-se para a Coréia do Norte.
Havia um grande otimismo sobre possíveis grandes avanços durante a cúpula da democrática Coréia do Sul e a comunista Coréia do Norte desde a calorosa recepção oferecida por Kim Jong-il na terça-feira. Os dois líderes também pareciam determinados a promover um diálogo aberto apontado para grandes metas, incluindo uma eventual reunificação.
O espírito persistiu ontem.
‘‘A unificação é o objetivo final desta era’’, disse Kim Dae-Jung. ‘‘Se os dois países unirem forças, então a Coréia se tornará uma nação de primeira classe.’’
Ele pediu a Pyongyang para buscar a reconciliação, e se esforçar para melhorar suas relações com o Japão e os Estados Unidos.
Em conversações que Kim Dae-Jung teve mais cedo com outras autoridades norte-coreanas, foi discutida a abertura de estradas e ferrovias entre os dois países pela primeira vez em mais de 50 anos; realizar uma segunda cúpula em Seul; e criar uma linha telefônica direta para discussões durante crises.
As linhas férreas e rodovias da península foram interrompidas por volta de 1948, quando as duas Coréias formaram seus próprios governos e fecharam as fronteiras. A Guerra da Coréia, de 1950 a 1953, terminou com um armistício, e tropas continuaram concentradas nos dois lados da Zona Desmilitarizada.
Com a abertura dessas rotas, os dois países poderiam promover comércio e negócios que são desesperadamente necessários para a cambaleante economia do Norte e eventualmente levar à reunificação de muitas famílias coreanas.
A cúpula de três dias termina hoje.

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