De eremita a superstar: Kim Jong-il – pelo menos por um dia – transformou-se em um míssil da mídia global. A Coréia do Sul, e as grandes capitais do mundo, ainda estão sob o choque do futuro: as imagens – até há pouco inadmissíveis – do ‘‘Grande Líder’’ norte-coreano apertando a mão do presidente sul-coreano Kim Dae-Jung no próprio aeroporto de Pyongyang; e as imagens de sua primeira conversa relativamente descontraída, de menos de meia hora, ontem de manhã.
Nem mesmo funcionários do governo sul-coreano esperavam este espetacular coup de thêatre. Kim Du-hyon, do Ministério da Unificação, confirmou ao Estado: ‘‘É um sinal muito auspicioso; isso significa que eles estão levando o encontro a sério.’’
Ontem, os dois Kim concordaram em discutir o tema geral de ‘‘reconciliação, cooperação e paz entre as Coréias’’. Hoje, na primeira cúpula oficial, discute-se substância. A espinha dorsal do argumento do Sul é a promessa de DJ – em março, em uma Berlim também outrora dividida – de trabalhar para promover o fim da guerra fria na península. Como primeiro passo prático, DJ deve explicar em detalhes seu miniplano Marshall para ajudar o Norte a expandir e modernizar sua caquética infra-estrutura – fábricas, portos, estradas e estações de geração de energia.
Esta é a primeira vez que Kim Jong-il – envergando seu proverbial uniforme Mao e revelando a necessidade de praticar algumas flexões abdominais – aparece em uma transmissão de TV ao vivo, e ainda por cima via satélite para todo o planeta. Até hoje, ele só havia pronunciado uma frase em público: ‘‘Glória ao heróico Exército do Povo’’, em 1992.
Não houve abraço de urso entre os dois Kim – cena de rigor em encontros de líderes comunistas: apenas um aperto de mão. Na cerimônia de recepção – altamente emocional – não foram tocados hinos nacionais.
DJ, 78 anos, de acordo com um de seus assessores, saiu de Seul para uma verdadeira ‘‘viagem ao desconhecido’’ - ao som de uma canção sobre a reunificação, popularizada por dissidentes nos anos 70.
Suas últimas palavras em Seul foram ‘‘rezem por mim’’. Antes declarou: ‘‘Espero que este seja um ponto de convergência nos esforços para remover as ameaças de guerra e acabar com a Guerra Fria na Península Coreana para que os 70 milhões de cidadãos do sul e do norte possam viver em paz.’’
Depois de 67 minutos de vôo, jamais poderia imaginar sua entusiástica recepção em um aeroporto deliciosamente retrô, organizada por um Estado inimigo que ameaçava reduzir o Sul a um ‘‘mar de fogo’’ (sic). Suas primeiras palavras em Pyongyang provocaram lágrimas nos dois lados da fronteira mais militarizada do planeta: ‘‘Eu vim aqui porque queria ver as montanhas e os rios do Norte, o que sempre quis até nos meus sonhos.’’ DJ enfatizou ‘‘somos um só povo. Dividimos o mesmo destino. Vamos dar-nos as mãos’’.
Em mais uma premiSre, os dois Kim entraram em Pyongyang juntos,na limusine Lincoln negra que pertencia ao Grande Líder Kim Il-sung. De acordo com o vice-ministro da Unificação, Yang Young-sik, pelo menos 600 mil pessoas se acumulavam nos 15 quilômetros de percurso, aos gritos de ‘‘Kim Jong-il!’’ a todos pulmões e, esporadicamente, ‘‘Kim Dae-jung!’’, e agitando freneticamente azaléias de papel, rosas e vermelhas.
Na guest house estatal, onde DJ está hospedado, Kim Jong-il também estava descontraído: até reconheceu o ministro da Cultura e Turismo do sul, Park Jie-wan, que acertou a realização da cúpula em uma reunião secreta em Pequim, em abril. À tarde, DJ visitou o número 2 do regime, o falcão e chairman do Comitê da Suprema Assembléia Popular, Kim Yong-nam. Mais descontração: Yong-nam até aludiu que um dia, sem metáfora, os dois ‘‘podem pegar juntos o trem da reunificação’’. O sul espera que a viagem, mesmo remota, comece hoje.

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