Coreia do Norte aceita mandar atletas para Olimpíada de Inverno
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Folhapress 

São Paulo - A Coreia do Norte anunciou nesta terça-feira (9) que enviará uma delegação para disputar a Olimpíada de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, entre 9 e 25 de fevereiro.
A decisão foi tomada após a primeira reunião entre representantes dos dois países em mais de dois anos. Para facilitar o acordo, Seul anunciou que estuda suspender temporariamente parte das sanções que impôs contra a ditadura de Kim Jong-un e que vai pedir à ONU que faça o mesmo.
Os dois países concordaram em restabelecer uma linha direta para assuntos militares, que deve entrar em funcionamento nesta quarta-feira (10).
O vice-ministro Chun Hae-Sung, responsável da Coreia do Sul pelas negociações com o vizinho, disse que seu país pediu a realização de uma nova rodada de conversas para diminuir a tensão na península, além de uma retomada das negociações sobre os testes de mísseis e programa nuclear norte-coreano. Os representantes da Coreia do Norte não chegaram a responder a oferta, mas se disseram abertos ao diálogo e a negociação.
Seul propôs também que os atletas dos dois países marchassem juntos durante a cerimônia de abertura. Isso já ocorreu em uma série de eventos esportivos durante os anos 2000, incluindo as Olimpíadas de Sidney-2000 e Atenas-2004, mas não acontece desde 2007.
Os sul-coreanos também querem realizar uma série de reencontros entre famílias divididas pela Guerra da Coreia (1950-1953) no Ano Novo lunar, que acontece durante os Jogos. A Coreia do Norte afirmou que sua delegação terá militares de alta patente, atletas e um grupo de torcedores.
Na única vez que a Coreia do Sul recebeu uma edição dos Jogos Olímpicos, a Olimpíada de Verão de 1988 em Seul, a Coreia do Norte boicotou o evento. Antes da competição, no final de 1987, o governo norte-coreano explodiu um avião sul-coreano, matando as 115 pessoas a bordo, em uma tentativa de desestabilizar o torneio.
ENCONTRO
O encontro desta terça (9), o primeiro desde dezembro de 2015 entre Seul e Pyongyang, foi feito na vila de Panmunjom, que fica dentro da zona desmilitarizada que separa os dois países. A reunião começou às 10h locais (23h de segunda no horário de Brasília) na Casa da Paz, uma construção de três andares que costuma ser usada para as conversas entre as duas Coreias. Cada país mandou cinco representantes ao encontro.
"Nós viemos a este encontro com o objetivo de dar aos nossos irmãos, que têm altas expectativas para este diálogo, um resultado inestimável como o primeiro presente do ano", disse o chefe da delegação norte-coreana, Ri Son-gwon, ao chegar ao local cerca de meia hora antes do horário combinado.
Do lado sul-coreano, um pequeno grupo com 20 pessoas se reuniu do lado de fora da zona desmilitarizada com faixas de boa sorte e bandeiras com o desenho da península unificada. Chun, que chefiou a delegação sul-coreana, disse que os dois países estão trabalhando para entregar um "bom presente" para suas populações.
"As conversas começaram após o Norte e o Sul se distanciarem por um longo período, mas eu acredito que dar o primeiro passo é metade do caminho", afirmou ele.
O encontro desta terça foi proposto por Seul logo após o ditador Kim Jong-un expressar em seu discurso de Ano Novo no dia 1º a intenção de permitir que os atletas norte-coreanos participassem da Olimpíada de Inverno.
A Coreia do Sul imediatamente respondeu apoiando a ideia e no dia 2 fez o convite para um diálogo formal. No dia seguinte, representantes dos dois lados se falaram por telefone. Na sexta (5), Pyongyang aceitou oficialmente o convite para o encontro, logo após Seul e Washington anunciarem que adiariam um exercício militar conjunto que fariam na região. O governo americano ainda não comentou sobre o resultado da reunião, mas a China e a Rússia elogiaram a iniciativa.
APROXIMAÇÃO FRACASSOU EM 1988
São Paulo - Se desta vez a retomada das conversas entre Coreia do Sul e Coreia do Norte resultou em um acordo para que dois patinadores norte-coreanos possam participar dos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang, antes dos Jogos de Seul, em 1988, as conversas entre os dois países terminaram de forma bem diferente. Há 30 anos, a Coreia do Sul tentava usar os Jogos como vitrine para mostrar sua transformação em uma nação moderna com economia pujante, depois da guerra que marcou a península nos anos 1950. Já a Coreia do Norte resistia ao reconhecimento internacional da existência de duas Coreias e queria ser incluída na organização dos Jogos.
Os países e o Comitê Olímpico Internacional negociaram durante três anos, mas Pyongyang, que queria um papel maior nos Jogos, recusou a oferta de ser sede de alguns poucos eventos esportivos, acusando o Sul de promover a divisão da península. Antes da competição, no final de 1987, o governo norte-coreano explodiu um avião sul-coreano, matando as 115 pessoas a bordo, em uma tentativa de desestabilizar o torneio. A Coreia do Norte também tentou liderar um boicote dos países socialistas aos Jogos, mas conseguiu a adesão apenas de Cuba, Nicarágua e Etiópia - importantes países socialistas da época, a URSS e a Alemanha Oriental, decidiram participar da Olimpíada de Seul.
Os Jogos foram vistos como um sucesso, com a participação de 159 países, mas contribuíram para o isolamento da Coreia do Norte, que, sem apoio de aliados e sem conseguir negociar com o Sul, o país apostou no fortalecimento de suas forças militares e iniciou seu programa nuclear nas décadas seguintes. No ano passado, Pyongyang fez um teste de uma bomba de hidrogênio e 16 testes de mísseis intercontinentais.
TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
Os Jogos de 1988 também contribuíram para a consolidação da democracia na Coreia do Sul, que até 1987 era uma ditadura. Legado do governo de Park Chung-hee nos anos 1970, a candidatura de Seul a sediar a Olimpíada em 1988 foi vitoriosa em 1981, já durante o governo de Chun Doo-hwan, sucessor de Chung-hee. Protestos pró-democracia se intensificaram no país ao longo da década de 1980, chegando ao ápice no início de 1987. Havia o temor de que Doo-hwan reagisse com repressão violenta aos protestos, mas analistas acreditam que o fato de que o país sediaria os Jogos evitou essa reação. Ainda em 1987, o ditador permitiu que fossem realizadas eleições livres e o país se tornou uma democracia desde então.


