O Congresso do Paraguai decidiu ontem iniciar um processo político contra o presidente Raul Cubas, que anunciou a detenção do ex-general golpista Lino Oviedo em um esforço para defender sua frágil posição. Surpreendentemente, e em meio ao clima de convulsão nacional causado pelo assassinato de Luis María Argaña, a Câmara dos Deputados paraguaia aprovou na madrugada de ontem a abertura do processo de impeachment contra Cubas. Ele foi acusado de ‘‘mau desempenho das funções presidenciais’’ e ‘‘abuso de poder’’ - por ter ignorado uma sentença da Corte Suprema de Justiça para que prendesse seu padrinho político, o general Oviedo.
De imediato, a Câmara convocou o presidente para ser informado das acusações contra ele, o que acontece hoje. As duas acusações foram acatadas por 49 votos a favor e 24 contra. Não compareceram à sessão sete deputados, todos partidários de Oviedo - e, por consequência, de Cubas -, que poderiam ter impedido a aprovação da moção. O processo passa agora ao Senado, onde é quase certo que obtenha os 30 votos necessários (dois terços do total de 45 senadores) para instalar o julgamento político contra Cubas. A partir do momento em que o Senado adote essa medida, o presidente paraguaio será imediatamente afastado do cargo.
Manifestantes que, nas ruas, acusavam a dupla Cubas-Oviedo de ter sido responsável pelo assassinato de Argaña festejaram a decisão dos deputados. Não há prazo estabelecido para que o Senado vote o impeachment. Como as duas Câmaras do Congresso se declararam em sessão permanente desde o anúncio do assassinato, a votação dos senadores pode ocorrer a qualquer momento. Diante do aparentemente inevitável afastamento de Cubas da presidência, o presidente do Senado, Luis González Macchi, deve assumir o cargo, e o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral convocará eleições no prazo máximo de seis meses.
A votação da Câmara realizada ontem estava prevista para o dia 7 e nada indicava que a oposição conseguiria os votos necessários para autorizar a abertura do processo. Argaña vinha agindo nos bastidores na tentativa de reunir votos suficientes para afastar Cubas da presidência, abrindo o caminho para que ele assumisse o cargo na condição de vice. A iniciativa de antecipar a votação, aproveitando-se da ausência dos oviedistas, partiu do deputado arganista Ángel Barchini e foi aprovada às pressas pelo plenário. Os partidários de Lino Oviedo nem sequer tiveram tempo para reagir.
O presidente da Câmara, Walter Bower, ordenou que as portas do edifício fossem fechadas durante a votação. A providência impediria que os governistas entrassem, caso ousassem desafiar a furiosa multidão de manifestantes que estava do lado de fora do prédio. Um dos mais leais seguidores de Oviedo e acusado de ser um dos planejadores do assassinato de Argaña, o deputado Conrado Pappalardo, tentou forçar sua entrada.
Quando soube que o impeachment ia ser votado, armou-se e dirigiu-se à Câmara. Jogando o carro contra a multidão que tentava detê-lo, irritou-se ao encontrar as portas fechadas e lançou o veículo contra elas. Após a colisão, segundo testemunhas, foi agredido pelos seguranças da Casa. Quando, ensanguentado, conseguiu entrar no plenário, a moção já havia sido aprovada. Em mais um inesperado capítulo da novela em que se converteu a crise política paraguaia, o presidente Cubas anunciou ontem ter ordenado a prisão de Oviedo, para ‘‘recuperar a paz no país e evitar males maiores à democracia’’. Mas, numa breve declaração aos jornalistas no quartel da Guarda Presidencial, uma unidade do Exército, Oviedo aumentou a confusão política ao declarar que não estava preso. ‘‘Vim, na companhia de meu advogado, apenas para esclarecer algumas questões jurídicas sobre minha situação ante o tribunal militar’’, informou o general. Até o início da noite de ontem, porém, Oviedo ainda não tinha deixado a instalação militar.

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