São Paulo Gritando ''justiça sim, esquecimento não'', peruanos se reuniram anteontem na região andina de Ayacucho (sul do país), para assistir à apresentação de um relatório da Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru, que lançou luz sobre a violência política que deixou 69 mil mortos e desaparecidos nos últimos 20 anos do século 20.
''Eu acredito que pode haver justiça com a comissão. Pela primeira vez, eles estão nos ouvindo, estão apoiando as vítimas'', disse Paulina Rojas, 35, camponesa cuja irmã foi estuprada e morta a tiros aos 12 anos. Os assassinos não são conhecidos.
''Quero ouvir as recomendações da comissão porque está na hora do governo ouvir'', disse ela. Rojas viajou de sua cidade para assistir à cerimônia, na qual a comissão apresentou seu relatório de nove volumes. A comissão escolheu a região de Ayacucho porque 40% das vítimas do conflito vieram da região.
Relatório O presidente da Comissão Verdade e Reconciliação, o peruano Salomón Lerner, anunciou na quinta-feira que a violência política no Peru deixou mais de 69 mil mortos e desaparecidos nos últimos 20 anos, o dobro do que se estimava anteriormente.
Lerner culpou o grupo Sendero Luminoso pelos conflitos e acusou as Forças Armadas e a polícia por crimes contra os direitos humanos.
Segundo ele, ''cabe hoje ao Peru enfrentar um tempo de vergonha nacional''. O chefe da comissão afirmou que ''as duas décadas finais do século 20 deixaram no país uma marca de horror e de desonra para o Estado e a sociedade''.
O relatório foi baseado em dois anos de investigações sobre as violações aos direitos humanos no país entre 1980 e 2000 e contou com aproximadamente 17 mil testemunhos.
Alvos civis Durante os 20 anos de guerra interna, a população foi especialmente atingida, principalmente os habitantes de áreas rurais e de pequenas cidades, que muitas vezes se viram no meio do fogo cruzado entre os ataques dos grupos terroristas e a repressão desencadeada pelas forças de segurança.
As conclusões da comissão, fundada em 2001, alguns meses após a fuga do então presidente, Alberto Fujimori, para o Japão, em novembro de 2000, serão entregues ao presidente do Peru, Alejandro Toledo, do Congresso, Henry Pease, e da Corte Suprema de Justiça, Hugo Sivina.
Lerner, que é reitor da Universidade Católica de Lima, disse que o relatório denunciará mais de cem militares responsáveis por graves violações aos direitos humanos.

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