Confrontos matam 105 pessoas na Nigéria
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sábado, 23 de novembro de 2002
Agência Folha<br> Agência Folha 
Kaduna - Confrontos entre muçulmanos e cristãos na cidade de Kaduna, no norte da Nigéria, deixaram ao menos 105 mortos e 521 feridos, segundo informações divulgadas ontem pela Cruz Vermelha.
Jovens cristãos e muçulmanos voltaram a se enfrentar, no terceiro dia do conflito provocado por um artigo de jornal que sugeria que o profeta Muhammad (Maomé), fundador do islamismo, aprovaria o concurso de Miss Mundo, que será realizado na Nigéria. A publicação foi considerada pelos muçulmanos uma blasfêmia.
Representantes do governo federal se encontravam ontem em Kaduna para negociar com representantes das autoridades religiosas e tentar acalmar os ânimos, disse Muktar Sirajo, porta-voz do Estado de Kaduna.
As autoridades enviaram militares para ajudar a polícia. O toque de recolher, decretado na quarta-feira, foi prolongado por 24 horas, depois de uma nova noite de confrontos, em que jovens muçulmanos e cristãos queimaram igrejas e mesquitas, saquearam lojas e destruíram veículos.
O presidente da Cruz Vermelha na Nigéria, Emmanuel Ijewere, declarou que o número de mortos foi confirmado por funcionários de Kaduna. Segundo Ijewere, o número de mortos poderia aumentar. ''Há algumas casas que não foram revistadas. É possível que haja vítimas nessas casas.''
Pouco antes, um porta-voz da Cruz Vermelha nigeriana disse que pelo menos 521 feridos tinham sido retirados por equipes de médicos voluntários para os hospitais da cidade.
A realização do concurso de beleza na Nigéria provocou polêmica entre os muçulmanos. Os protestos começaram na quarta-feira por causa de um artigo do jornal nigeriano This Day, que no sábado publicou o artigo considerado profano pelos muçulmanos.
Rapidamente, a situação evoluiu para um enfrentamento entre cristãos e muçulmanos da cidade e uma manifestação genérica contra o concurso de beleza, marcado para 7 de dezembro na capital da Nigéria, Abuja.
O concurso de beleza é o maior evento de entretenimento já feito no país. As autoridades esperavam que ele ajudasse a melhorar a imagem da Nigéria, abalada pela condenação à morte por apedrejamento de Amina Lawal, 31, que tem um filho de uma relação extra-conjugal.
Várias candidatas ameaçaram boicotar o evento em protesto contra a condenação à morte de mulheres por tribunais islâmicos do norte do país. Mas o governo garantiu que nenhuma mulher será apedrejada, e depois disso cerca de 90 candidatas desembarcaram na Nigéria, na semana passada, muitas delas expressando apoio a Lawal e a outras mulheres condenadas por adultério pela lei islâmica.
A situação é tensa também em outras cidades do norte da Nigéria. Moradores disseram que a polícia está de prontidão em Kano, onde conflitos religiosos são frequentes.


