Londrina - A intervenção militar norte-americana pode ter consequências desastrosas para a Síria e se transformar em um fator de instabilidade para todo o Oriente Médio. A opinião é compartilhada pelo comerciante Abdulrahman Mahairi, 33 anos, e por um agente educacional de 29 anos, que preferiu não se identificar por medo de represálias aos familiares que vivem no país asiático. Ambos vivem em Londrina, 11 mil quilômetros distantes de Damasco, capital síria e epicentro do conflito que está tirando o sono dos líderes mundiais. E ambos temem "um banho de sangue" na terra em que vive gente com o mesmo sobrenome deles após o provável ataque dos Estados Unidos.
Angustiados, buscam notícias e informações que os tranquilizem, mas elas praticamente desapareceram. "A guerra civil parecia estar na fase no fim mas aí houve o episódio do gás sarin e o cenário piorou, se radicalizou", afirma o agente educacional, cujo tio-avô serviu às Forças Armadas sírias na Guerra Árabe-Israelense de 1948.
Para Mahairi, que nasceu na Síria, cresceu no Brasil e voltou a morar na Síria na juventude, o ataque com arma química - que segundo informações do governo americano teria matado 1,4 mil pessoas nos arredores de Damasco – deveria ser melhor investigado antes de uma ação militar contra o regime do presidente Bashar Hafez al-Assad, no poder desde 2000. "É preciso provar que o ataque partiu do governo. Tenho convicção que não, que o ataque partiu dos rebeldes. Que se faça então uma investigação independente do que aconteceu", defende o muçulmano, que tem parentes próximos, maternos e paternos, vivendo em Damasco.
O agente educacional concorda e acha que o caso deveria ser levado para as cortes internacionais, sem julgamento prévio. "Não estou defendendo al-Assad. Trata-se de um facínora. Ocorre que não havia razão para que o governo fizesse o ataque naquele momento do conflito, que claramente já caminhava para uma vitória do regime", pondera o rapaz, formado em Letras e estudante de Geografia. "É muito mais plausível a hipótese de um ataque dos rebeldes, com apoio das potências ocidentais, ávidas por uma justificativa para intervir", arrisca. "Eles podem até apresentar provas forjadas para convencer o mundo mas a mim não convencem".

Esperança
Ambos ainda mantém uma pequena esperança de que haja uma saída diplomática antes que a máquina de guerra americana entre em cena. "O ditado está valendo mais do nunca: a esperança é a última que morre", diz o agente educacional. Para o comerciante, o bom-senso ainda pode prevalecer porque os líderes mundiais podem ser pressionados pela opinião pública e por uma onda pacifista. "Desde 11 de Setembro, os Estados Unidos vêm perdendo credibilidade e apoio para ser o líder hegemônico. Isso pode evitar a ação mas pode trazer ainda mais problemas se realmente acontecer".
Os dois também lembram da posição russa, claramente contrária a intervenção, e que não pode ser desprezada. "Um bombardeio na Síria pode provocar um conflito com vários países da região. E este conflito regional pode desencadear um conflito global. É só observar a origem das duas grandes guerras para entender meu raciocínio", lembra o comerciante.
Enquanto o agente educacional obtém informações sobre a situação do país árabe através de grupos fechados em redes sociais, o comerciante usa o telefone quase diariamente. "A classe média e média alta já começou a deixar o país também. Há congestionamentos constantes nas fronteiras desde que Barack Obama fez o pronunciamento sobre o ataque. Dizem por lá que um terço da população (de cerca de 20 milhões de habitantes) já deixou o país", informa Mahairi. "Mas muitas informações não chegam completas porque há um receio muito grande. As linhas estariam grampeadas".
A Acnur, a agência de refugiados das Nações Unidas, estima em mais de 2 milhões de pessoas deixaram o país (o Líbano recebeu 720 mil, a Jordania, 520 mil, e a Turquia, 464 mil) enquanto outros 4,2 milhões sírios tiveram que fazer deslocamentos internos."Há casas com 20 ou 30 pessoas e já há falta de combustível até para cozinhar e aquecer. Estão usando lenha". T.A. também garante que tem várias fontes não-oficiais que constatam o caos econômico e social no país.
O agente educacional e Mahairi acreditam que sejam possível negociar um período de transição e a convocação de eleições livres, com fiscalização internacional. O comerciante aposta que al-Assad venceria com 80% dos votos.

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