Ariel Palacios
Agência Estado
De Buenos Aires
As colunas de negra fumaça das barricadas em chamas voltaram a se erguer no céu da cidade de Corrientes. Ontem morreram quatro pessoas em choques com a Gendarmería (corpo especial de segurança, especializado na dissolução de protestos e controle de fronteiras), que reprimiu violentamente as manifestações causando 50 feridos. Os manifestantes resistem à gendarmería com coquetéis molotov, estilingues e pedradas. Diversos supermercados foram saqueados. A cidade está com o abastecimento praticamente cortado.
Por causa da grave crise econômica, social e política que assola a província que faz fronteira com o Brasil na altura do Rio Grande do Sul, o presidente Fernando De la Rúa anunciou que o governo federal fará uma intervenção em Corrientes a partir de segunda-feira.
A cidade de Corrientes, capital da província do mesmo nome, está quase completamente isolada: mesmo expulsos da ponte General Belgrano, que é o principal entroncamento rodoviário que conecta o sul do Brasil com o norte da Argentina e do Chile, centenas de manifestantes permaneceram nos arredores bloqueando o resto do trânsito. Outras entradas da cidade estão bloqueadas por caminhoneiros, que protestam pelo bloqueio dos manifestantes.
Corrientes está mergulhada em uma convulsão social desde julho, quando começaram os protestos pelos atrasos nos salários dos funcionários públicos. Desde então, os órgãos governamentais não funcionam, os professores entraram em greve, e grande parte da polícia também se recusa a trabalhar.
Há cinco meses, por causa dos violentos protestos, o então governador Braillard Poccard foi deposto, depois de ter sido apedrejado pela população. Seu sucessor, Hugo Perié, não teve sorte: foi removido pela assembléia legislativa, e em seu lugar foi colocado Carlos Tomasella.
Perié se recusa a deixar o governo, Tomasella tenta mandar no que resta do funcionalismo público, e ambos resistem à idéia de intervenção federal.
A província deve US$ 1,5 bilhão, e as vendas do comércio caíram 70%.
Corrientes é um exemplo das crises provinciais: arrecada US$ 6 milhões por mês, mas gasta US$ 38 milhões no pagamento de funcionários públicos e aposentados.
‘‘Gases lacrimogêneo não matam ninguém...’. A frase é de Ramón Mestre, ex-dentista e ex-governador de Córdoba, designado por De la Rúa como interventor de Corrientes. Mestre tomará posse na segunda-feira. No entanto, apesar de suas declarações, uma das pessoas mortas era uma mulher grávida que se intoxicou com o gás lacrimogêneo da gendarmería.
Analistas consideram que a designação de Mestre pode ser um tiro pela culatra, e que poderia constituir-se no primeiro fracasso político do governo De la Rúa. ‘‘Mal-humorado e mandão’’ são os adjetivos mais utilizados ao defini-lo. ‘‘Eu não deixaria que Mestre me removesse um dente’’, afirmou o ex-presidente Raúl Alfonsín.Manifestantes querem pagamento de salários atrasados. De la Rúa disse que fará uma intervenção na cidade partir de segunda-feira
France PresseCAMPO DE BATALHAEfetivo da Gendarmería bloqueiam rua central de Corrientes durante enfrentamento com manifestantes

mockup