O planeta conta atualmente com 250 milhões de trabalhadores entre cinco e catorze anos. Se uma minoria entre essas crianças, desenvolvendo uma atividade modesta se orgulha de ajudar a família a completar o magro orçamento doméstico, a grande maioria vive um pesadelo submetida a atividades das mais pesadas, incompatíveis com sua faixa etária. Crianças mal alimentadas e mal dormidas, sofrendo na sua alma e na sua carne, condenadas a uma vida semi-escrava. Para refletir sobre a evolução desse problema é que o governo da Noruega, juntamente com o Unicef e com o apoio de mais de 40 países, está organizando, a partir de hoje, em Oslo, uma conferência internacional cujo objetivo principal é definir uma estratégia mundial para combater o trabalho infantil.
O Brasil, um dos países sempre citados pelos relatórios das organizações internacionais sobre o trabalho infantil, está enviando à capital da Noruega uma delegação de alto nível, devendo ser representado pela primeira-dama Ruth Cardoso, presidente da Comunidade Solidária, o ministro do Trabalho, Paulo Paiva e o responsável pela Secretaria de Direitos Humanos, o advogado José Gregori. O alto nível da representação brasileira demonstra o interesse do governo em mostrar os esforços que têm sido desenvolvidos nessa área.
Na América Latina, o Brasil está entre os cinco países onde a situação é mais grave, apresentando uma percentagem elevada de crianças entre 10 e 14 anos submetidas ao trabalho, 16,1% de sua população infantil, só superada pelo Haiti com 25,3, mas no mesmo nível da Guatemala e República Dominicana. Para que se tenha uma idéia , nos países mais pobres da Europa, essa percentagem oscila entre 0,2% na Romênia e 1,8% em Portugal. É verdade que a Ásia e a África são as regiões mais afetadas por esse drama, onde as percentagens são escandalosas, 45,4 no Timor Oriental, 45,2 no Nepal, mas 54,5 no Mali e 51,1 no Burkina Faso.
O Unicef opera uma distinção entre o trabalho aceitável e o intolerável para as crianças. O inaceitável é todo trabalho que atrapalha o desenvolvimento físico e mental da criança; que contribui para sua exploração econômica e social ou viola sua integridade espiritual e moral. Quanto ao aceitável, é o que permite a criança nesses países mais pobres contribuir para a renda familiar, o que lhe garante um certo orgulho, permitindo a busca de uma formação, de uma profissão, conferindo-lhe um estatuto que facilita sua integração, mesmo se, em alguns casos, isso nem sempre preserve integralmente sua escolaridade e mesmo seu lazer.

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