Começou ontem, em Bonn, na Alemanha, a Conferência Internacional sobre Água Doce, que discute as principais recomendações sobre recursos hídricos a serem encaminhadas à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável ou Rio+10, prevista para Johannesburgo, África do Sul, em 2002. Participam da reunião, que vai até o final de semana, representantes de 135 países.
A principal meta é reduzir pela metade, até o ano 2015, o número de pessoas hoje sem acesso à água potável, em quantidade e qualidade suficiente atualmente são 1,2 bilhão. Para tanto, é preciso reduzir os conflitos em torno dos recursos hídricos e buscar meios de tornar sua exploração sustentável, tanto regional como nacional e local. Sem esquecer a redução da poluição por descargas inadequadas dos esgotos de 2,5 bilhões de pessoas e alternativas para lidar com as consequências da variabilidade e mudanças do clima.
''A Alemanha já é o país europeu que mais investe em acordos bilaterais do setor hídrico, contribuindo com 600 a 800 milhões de marcos alemães por ano'', disse o secretário Uschi Eid, do Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento, ontem, na abertura da reunião. ''Mas também estamos comprometidos com investimento político, em benefício do uso sustentável da água.''
Entre outras recomendações, aponta-se como ideal o manejo dos recursos hídricos por bacia hidrográfica, seguindo a lógica da natureza e não a divisão político-administrativa dos homens. Este é um ponto, que, de certa forma, deixa o Brasil confortável, uma vez que a gestão proposta pela Agência Nacional das Águas (ANA) já é assim. ''Embora ainda seja muito nova e ainda não tenha muitos resultados, a ANA trabalha com as ferramentas legais consideradas mais adequadas, permitindo o diálogo de todos os setores envolvidos'', comenta Samuel Barreto, coordenador do Programa de Conservação e Gestão da Água Doce do Fundo Mundial para a Natureza (WWF)-Brasil. ''As dificuldades aumentam quando uma bacia hidrográfica ultrapassa as fronteiras nacionais, como é o caso do Brasil com o rio Amazonas ou a bacia Paraguai-Paraná''.
A entidade ambientalista está representada na reunião de Bonn e defende a implementação da gestão integrada nestes rios, que cortam mais de um país. Além disso, o WWF também pressiona os delegados oficiais por um compromisso entre grupos regionais de governos, para proteger as montanhas e margens destes rios internacionais e para restaurar ecossistemas de áreas úmidas, inclusive desativando represas e barragens, quando necessário. ''Os mecanismos financeiros, como os do Banco Mundial, por exemplo, devem privilegiar a visão da eficiência e não de novas produções'', acrescenta Barreto.
Segundo ele, apenas com um programa de eficiência energética, que privilegiasse a aquisição de novos equipamentos, o dessassoreamento de reservatórios e preservação das suas margens contra erosão, o Brasil teria energia equivalente a nove Itaipus, dispensando a construção de novas barragens para energia e passando a utilizar estes recursos hídricos para consumo humano.

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